Tragédias de março
As águas de março chegaram e como acontece sempre nesta época do ano, o Brasil cumpre a triste função de contar os mortos por conta de enchentes e deslizamentos de terra. O leitor deve estar com aquela velha sensação de déjà vu: já viu essa notícia (provavelmente no ano passado) e pode ter lido um editorial falando do mesmo assunto. Infelizmente, entra ano e sai ano e os jornais cumprem a difícil missão de noticiar as tragédias provocadas pelas chuvas fortes que caem de janeiro a março.
Em Petrópolis, no Rio de Janeiro, até a noite de segunda-feira, 16 pessoas haviam morrido vítimas de morros que desabaram. Entre os mortos estão crianças que dormiam no momento em que a casa deles foi tomada pela lama. Dois agentes da Defesa Civil também perderam a vida enquanto orientavam moradores a abandonarem o local.
Há dois anos, na mesma região do Rio de Janeiro, 900 pessoas morreram vítimas de enchentes e deslizamentos de terra. Os paranaenses também não esqueceram a tristeza provocada por uma forte chuva, que caiu no Litoral, em março de 2011, matando três pessoas.
Como acontece todos os anos, as autoridades correm para os microfones para dizer que o sistema de prevenção - que alerta a população do risco de desabamento - funcionou e que não houve falha na prevenção. Ora, se não houve falha, porque existem famílias retirando da lama os corpos de seus entes queridos?
Se os governos federal, municipal e estadual realmente estivessem empenhados em resolver esses problemas, certamente as tragédias não se repetiriam todos os anos. As regiões metropolitanas das grandes cidades são as mais afetadas pelas chuvas de verão e, na maioria das vezes, os grandes prejudicados são as pessoas mais pobres da periferia.
Catástrofes como esta que atingem o Rio de Janeiro são resultado da ação modificadora do homem na natureza e do crescimento rápido e desordenado das cidades. Hoje, sentimos as consequências do desmatamento, do assoreamento do leito dos rios, do alto grau de impermeabilização do solo, da destinação inadequada do lixo, da falta de educação ambiental e da omissão e da incompetência do poder público em solucionar um problema antigo e constante. Não basta fazer só o mapeamento de riscos. É preciso utilizar esses dados para definir os locais que receberão sistemas de alerta realmente eficientes e priorizar a remoção de famílias que vivem em terrenos perigosos.





