TRAGÉDIA SOCIAL - Consumo de crack cresce mais que o de maconha
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de novembro de 2008
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Tão acessível quanto destrutivo, o crack - uma espécie de resíduo do refinamento da cocaína - vem se popularizando a tal velocidade nas grandes cidades brasileiras que especialistas já falam na ameaça de uma ''epidemia'' do vício em capitais como o Rio de Janeiro. Sabe-se que a droga já não está restrita a jovens em situação de risco social; ao contrário, vem avançando em meio à classe média.
Além de ser uma das substâncias mais devastadoras para o organismo dos dependentes - podendo provocar danos neurológicos irreversíveis, paradas cardíacas e, em muitos casos, morte -, o crack leva um grande número de adolescentes a se prostituir ou cometer furtos e roubos.
Para o neuropsiquiatra Jairo Werner, professor das universidades Federal Fluminense (UFF) e Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador dos transtornos causados por álcool e drogas em crianças e jovens, a sociedade brasileira precisa despertar para a gravidade do problema.
O que mudou no perfil dos usuários de crack?
No ano de 2003 tivemos uma surpresa quando, ao receber o resultado de exames de urina feitos em crianças e adolescentes recolhidos nas ruas, constatamos que 100% delas tinham não mais apenas maconha, mas cocaína no organismo. Foi quando vimos que o crack estava entrando nesse meio, porque é a forma de cocaína que se pode fumar.
Como isso aconteceu?
No Rio havia um bloqueio. Enquanto em São Paulo a ''crackolândia'' já era realidade há muito tempo - lá o consumo subiu de 17% para 64% na década de 90 - para nós isso só começou em 2000. Foi quando os comandos autorizaram a entrada da droga na cidade. Antes era uma coisa meio artesanal, mas a partir de 2003 as bocas de fumo passaram a comercializar também o crack.
O que fez a droga ganhar ''vantagem'' em relação a outras drogas?
O crack cria uma dependência muito rápida. É barato, causa um efeito muito potente e pode ser fumado junto com a maconha. Enquanto esta tem um efeito relaxante, o crack é euforizante.
Uma droga leva à outra?
Como ambas são consumidas via fumo, a mistura acaba se tornando atraente. Um grande problema da cocaína para o usuário, é que ele tenta relaxar e não consegue. Então o crack cresceu, enquanto o usuário de maconha e cocaína em pó estacionou.
E da mesma forma que o crack entrou em São Paulo e no Rio de Janeiro, pode ganhar força em cidades do interior, certo?
Sem dúvida. E aquilo que a gente previa está acontecendo. Hoje você não tem vaga para internar o número de pessoas usuárias.
O tratamento é muito específico?
É, primeiro porque gera mais demanda por tratamento. A dependência é quase que imediata. A outra questão é que você está trabalhando não só com uma droga que faz efeito muito rápido, mas com pessoas de uma faixa etária muito nova - meninas de 8, 9 anos. Não há pessoas especializadas em drogas com crianças. Depois, existe a possibilidade da relação com o crime, com o sexo, isso acaba gerando uma cultura muito específica da droga. Tirar uma menina dessas da rua fica muito difícil, porque ela já está viciada também em viver daquela forma, com aquele tipo de hábito e relações sociais. Isso é muito grave.
O sr. acredita que os jovens vêem o crack como uma droga inofensiva, assim como muitos consideram a maconha?
Há um desconhecimento geral. Não só sobre a droga, mas sobre como tratar os efeitos neurológicos, as mudanças nas estruturas cerebrais. O crack pode provocar perdas substanciais de memória, atenção, concentração, raciocínio, além de problemas psiquiátricos como a esquizofrenia, entre muito outros. Além de menosprezar os efeitos físicos, as pessoas ainda acham que é uma droga de pobre. Mas ela está chegando na classe média com toda força.
E qual a implicação disso?
Os pais estão muito longe de conhecer a realidade. A consequência é muito mais rápida e arrasadora na vida familiar, escolar e na saúde. Estamos também começando a ter crianças, filhos de usuários, com alterações cerebrais.
Quando vemos notícias na imprensa de mortes associadas às drogas, são quase sempre relativas a acertos de contas, e não aos efeitos da droga no organismo...
Mas ela mata sim. Muitas crianças de rua morrem por isso e ninguém sabe o que houve. Grande parte dos jovens que chegam aos hospitais com parada cardíaca, é em decorrência do crack.
O governo está enfrentando o problema?
No Rio há a Fundação da Infância e Adolescência (FIA), que tem duas clínicas de internação e uma rede de ambulatórios preparada para atender minimamente essa clientela. Mas estamos com uma rede muito pequena em nível nacional, em vista da demanda que está se criando. Com o alerta que a gente tem dado há muito tempo, era para haver uma rede mais consolidada.
As políticas de redução de danos podem ajudar?
Tudo é válido no caso de trabalhar com a droga. Mas não podemos achar que reduzindo danos vamos conseguir reverter esse quadro. Pode ser um estágio para o trabalho.
Ainda há esperança?
Com o trabalho junto aos usuários e a ajuda da imprensa, sim. Vai depender muito da conscientização da população e da pressão sobre os governos. Até porque o crack vai interferir diretamente na segurança pública.


