Tragédia humana e ambiental
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
Três dias depois da tragédia humana e ambiental causada pelo rompimento de uma barragem da mineradora Vale, o mundo assiste estarrecido ao desespero de uma cidade inteira que viu o tsunami de lama arrastar estradas, casas, plantações, matas, pessoas e animais. Se não fosse a falta de notícias e a dificuldade para resgatar sobreviventes e vítimas fatais, neste domingo (27) a sirene de alerta tocou em Brumadinho e expulsou de casa mais de três mil moradores, ameaçados agora com a possibilidade do rompimento de mais uma barragem do Complexo da Vale naquele município. Só que agora, ao invés de lama, o perigo vem representado por água. Durante todo o dia de domingo os moradores da pequena cidade próxima a Belo Horizonte buscavam locais seguros para se instalar, levando apenas documentos e as coisas de maior valor.
No último editorial, da edição do FDS (26/27), a FOLHA questionava a lição não aprendida pela Vale, considerando que há três anos a empresa era protagonista do maior desastre ambiental do Brasil, em Mariana, também em Minas Gerais, matando 19 pessoas, acabando com a vida no rio Doce, em toda a sua travessia, em Minas e Espírito Santo.
Quando tomou posse da presidência da Vale, em maio de 2017, Fábio Schvartsman anunciou que o lema da sua administração seria "Mariana nunca mais". O rompimento da barragem da Mina do Feijão, na sexta (25), e o risco de novos acidentes com outras barragens mostram que a questão não é apenas de uma lição não aprendida. Autoridades e especialistas apontam que houve negligência por parte da mineradora.
Até o final da tarde deste domingo, autoridades haviam confirmado 37 mortos em Brumadinho. Mais de 200 seguiam desaparecidos. A extensão da tragédia mostra que o Brasil não sabe fazer gerenciamento de risco e alertas de desastres (testemunhas disseram que na sexta-feira as sirenes de segurança não funcionaram). O que compensa é a coragem e determinação das equipes de socorro, como os bombeiros, policiais, defesa civil e voluntários. Também orgulha a rápida mobilização dos brasileiros de Norte a Sul com doações e ajuda humanitária. Um avião trazendo 130 especialistas israelenses chegaria ao Brasil na noite de domingo para ajudar no resgate de vítimas. Solidariedade é importante em uma hora como essa.
Mas o Brasil precisa deixar de seguir os velhos modelos de ação após tragédias como a de Mariana e Brumadinho. Normalmente, a história é sempre a mesma, com instalação de inúmeras comissões nas câmaras, assembleias e Senado. Comissões que chegam até mesmo a sugerir alterações legislativas, mas quase sempre acabam sem colocar em prática qualquer mudança importante. Que o "nunca mais" não fique só no discurso.



