Duas expressivas presenças do Papa no Brasil foram a do estádio do Pacaembu, para o encontro com milhares de jovens, e a da Fazenda Esperança, em Guaratinguetá (SP), que abriga 2.500 dependentes de drogas. E nesta última ele proferiu a sentença de que ''os traficantes terão de dar satisfações a Deus'', pela tanta destruição e sofrimento que provocam. A frase, entendida segundo o conceito de cada religião, tem o sentido de que as causas geram consequências, não apenas para as vítimas diretas mas para os produtores das drogas, para os que as comercializam e para as autoridades públicas que lhes dão cobertura ou pouco fazem para combater essa pestilência social.
Se já terá valido a pena um ato que venha a salvar uma única pessoa, é certo que a presença do Pontífice nesse centro de recuperação revigorou a fé e o ânimo de muitos que ali estão em busca de recompor suas vidas, e daqueles em iguais condições que o viram ali e o ouviram pela televisão. Independente dos credos de cada um, o Papa converteu-se num mensageiro de boas palavras nesta visita ao Brasil, assim como tem feito a outros países e o que fez sobretudo o Papa João Paulo II. Enquanto proliferam no mundo os disseminadores de desgraças, como os traficantes, os torturadores e geradores de guerras, os criadores e mantenedores de misérias sociais, os destruidores do meio-ambiente, os políticos corrompidos e indiferentes ao povo, os dominadores e manipuladores de toda a ordem, também existem os obreiros que correm os países, semeando alento e esperança, assim como o fazem tantos outros a partir de seus redutos.
A vida se recupera e se torna menos sofrida para tantos pela obra de pessoas como frei Hans Stapel, fundador e diretor da Fazenda Esperança, e de milhares de outras abnegadas criaturas e de associações do gênero em todo o Brasil, que se dedicam ao amparo de carentes e doentes. No caso das drogas, o combate a esse mal vem ganhando força no Vaticano e é um dos pilares de suas ações sociais e da pregação de que o problema deve ser tratado com prioridade pelos governantes do mundo.
O Papa retornou ontem no começo da noite a Roma, mas sua passagem por terras brasileiras deixa uma lembrança forte nos corações dos 160 milhões de católicos deste país, dos que vieram de outros países especialmente para vê-lo e ouvi-lo, dos que o viram e o escutaram através da televisão, do rádio e da internet em todo o mundo ou leram o noticiário nos meios impressos. Para os fiéis, a consagração de um brasileiro convertido em santo (Frei Galvão, agora Santo Antônio de Sant'Ana Galvão) foi um momento culminante da visita papal e também um marco histórico da Igreja no Brasil.
Seguindo a diretriz básica que emana do Papa, embora temas complexos enfrentem divergências entre os fiéis, os bispados vão adotando medidas conforme as suas realidades regionais. O forte apelo é para as causas temporais (leia-se as misérias sociais e outros males daí decorrentes, assim como a questão da terra e dos maus governos), que se mesclam com as missões de evangelização. A presença do Papa no Brasil representou também um robustecimento da presença da Igreja nas questões sociais e na cruzada pela causa da fé católica.

mockup