TRÁFEGO - Impunidade é o câncer do sistema de trânsito
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quarta-feira, 20 de maio de 2009
Caroline Vicentini<br>Reportagem Local 
Londrina tem, entre carros e motos, 254 mil veículos e, a cada mês, entram em circulação 800 novas unidades. Isso significa que para cada 2,1 habitantes de Londrina, existe um automóvel. Esse número é 50% maior do que a média brasileira. Somente no cruzamento da Avenida Higienópolis com a Avenida J.K. circulam 75 mil veículos diariamente.
No entanto, a cidade possui apenas 50 agentes, que além de fiscalizar o trânsito, são responsáveis por fazer cumprir o Código de Posturas do Município. Em 2008, a Companhia de Trânsito (Ciatran) registrou 6.190 colisões, que resultaram em 3.123 feridos e 65 mortes.
''Estamos avançando nas leis, mas retroagindo na operacionalização. A sensação de impunidade é o câncer do trânsito nacional'', assevera o especialista em trânsito Luis Riogi Miura.
Principal responsável pela implantação da campanha pelo respeito à faixa de pedestre nas ruas de Brasília, e com passagem pela diretoria do órgão municipal de trânsito de Maringá, Miura esteve em Londrina essa semana para participar, como palestrante, do Fórum Permanente de Planejamento Estratégico para o Desenvolvimento Sustentável de Londrina. Conhecido também como ''Fórum Desenvolve Londrina'', o evento teve como tema ''Segurança no Trânsito'' e deve apresentar no final do ano a realidade da cidade nesse setor.
Qual é a avaliação do senhor sobre a fiscalização da conduta dos motoristas no trânsito?
Estamos avançando nas leis, mas retroagindo na operacionalização. Aprovam-se leis mais rigorosas e controladoras, mas o sistema operacional está desestruturado. Lei rigorosa sem operacionalização desmoraliza, porque aumenta mais a sensação da impunidade, que é o grande câncer do sistema de trânsito. Você sente esta facilidade de cometer infrações e ficar impune. Um órgão de trânsito sempre é perseguido politicamente. Criou-se um estigma da indústria da multa. Pesquisas demonstram que para cada multa aplicada 10 mil infrações estão sendo cometidas sem punição. Onde é que tem indústria da multa nisso? A multa é paga pelo infrator. É uma opção do cidadão querer alimentá-la ou não. Você paga se quiser; é só não cometer a infração que você não pagará absolutamente nada.
A sensação de impunidade colabora com o comportamento agressivo dos motoristas?
O veículo potencializa algumas inadequações comportamentais. Ele tem uma arma na mão. O poder de deslocamento daquelas toneladas de ferro dá à pessoa uma sensação de segurança. Sentindo que a agressividade ficará impune, para cada reação que o motorista não encontra uma punição, aquela inadequação torna-se mais forte. Acho que o governo está perdendo dinheiro fazendo várias campanhas imbecis. As campanhas só têm conotação política, para melhorar a imagem do órgão que as promovem. Não buscam uma mudança objetiva.
Qual é a avaliação do senhor sobre a fiscalização do trânsito de Londrina?
A cidade já tem um sistema de monitoramento (o avanço de sinal é captado por uma sequência de imagens) que começou a ser implantado agora no Rio e São Paulo. Em Londrina, os motoristas avançam menos o sinal vermelho do que em Maringá. Porém, o sistema de controle de velocidade parece que inexiste em Londrina. O ideal seria instalar mais radares. Em Maringá, há 60 pontos com câmeras, mas só seis funcionando, fazendo rodízio em 60 pontos. Faz o mesmo efeito. O semáforo também poderia utilizar esse sistema. Não há como fiscalizar e melhorar o trânsito prescindindo da tecnologia.
Sistema viário inadequado X aumento no fluxo de veículos. Como resolver?
Com o aumento da frota, diminui-se o espaço público e, consequentemente, o motorista tem maior dificuldade para se deslocar. E quando você tem uma barreira na sua frente, se estressa mais. Você não morrerá em acidente de trânsito. Terá um infarto. Qual é a solução? Mudar a cultura de administração do trânsito. Cada vez mais é necessário priorizar e valorizar o transporte coletivo - hoje estigmatizado como transporte de pobre. Paralelamente a isso, começar a onerar o transporte individual em automóveis. Por exemplo, com estacionamento rotativo, rodízios, impostos. Existem cidades que permitem que carros com três, quatro pessoas se desloquem por uma via mais livre. São medidas que priorizam o transporte coletivo.


