Trabalho x dignidade
Lêda Márcia LitholdoSal, moedas de ouro, papel-moeda, cartão de crédito. A simbologia parece não ser tão significativa. A importância reside no que o dinheiro representa: o trabalho. E o que pensar quando este alicerce da respeitabilidade social se torna refém de uma conjuntura econômica? Qual é o custo da estabilidade da moeda? Quanto vale a dignidade humana?
Não há como defender o brio de uma pessoa que não trabalha. Não há como argumentar em favor de quem não produz. Mas, e quando essa situação acontece à revelia de milhares que em vão enfrentam diariamente filas e mais filas em busca não apenas de uma colocação no mercado de trabalho, mas de um lugar digno perante a sua família e à sociedade, conquistado às custas do esforço e dedicação próprios?
Já se tentou quantificar as sequelas emocionais em um pai de família que, sem perspectiva de trabalho, acorda todos os dias para o vazio? Não há como descrever a angústia que envolve um ser humano sem trabalho. Principalmente se ele for do sexo masculino. Uma sociedade embasada em princípios machistas não aceita, mesmo que de forma velada, um homem que não pode sustentar a si e aos seus.
A cobrança social acaba se transformando num terreno fértil para desabrochar as sementes da desesperança, da morbidez e da depressão. A mesma sociedade que deveria garantir o direito fundamental do trabalho aos seus cidadãos, exibe, por vezes, uma atitude incompatível com o que dela se espera. E nesse aspecto, ao invés de defender, acaba punindo os excluídos como forma de expurgar suas próprias deficiências.
Não são poucos os povos que têm problemas para administrar tais necessidades individuais, cujos reflexos são coletivos. A perspectiva de não pertencer mais às estatísticas que acompanham a evolução dos desempregados é recebida com euforia. Quem já não observou o brilho no olhar de alguém que preenche uma ficha de emprego como uma forma de resolução no resgate de seu amor próprio?
A fé quase cega depositada numa impotente folha de papel se materializa como uma chance de se retornar à dignidade. O trabalho atua na alma como um bálsamo a curar as feridas psicossomáticas inevitáveis no cotidiano humano.
O desemprego é como um câncer emocional, cujas metástases alcançam a alma e condenam a existência a um processo de degeneração dos valores mais primários. Não é original o axioma que afirma que o trabalho dignifica o homem, mas não há como negá-lo. Estabelecer a dimensão da relação custo x benefício da estabilidade da moeda se apresenta como um caminho sensato.
Talvez seja preciso resistir à sedução de se sentar em condição de igualdade com os países ricos do Planeta, pois assim poderemos até ter uma economia equilibrada, mas a um preço tão alto, que acabaremos por nos tornar uma nação de infelizes.
- LÊDA MÁRCIA LITHOLDO é radialista, bacharel em Direito e acadêmica de Comunicação em Presidente Prudente

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