Trabalhar fora do escritório, no conforto do lar, sem precisar enfrentar o trânsito, não é mais sonho para cerca de 10 milhões de trabalhadores brasileiros. São profissionais incentivados por empresas ou donos do próprio negócio que encontraram no home office - ou teletrabalho - a chance de ganhar tempo e praticidade, unindo casa e escritório no mesmo ambiente.
A Associação Brasileira de Teletrabalho (Sobratt) estima que este mercado cresce 70% ao ano, em média, no Brasil, principalmente no setor privado. Uma pesquisa realizada em nove capitais, apontou que 23% das pessoas ouvidas, prestam serviços virtualmente.
O estudo elaborado pela Market Analysis, opontou que em Curitiba, 18% da população economicamente ativa tem algum envolvimento com o teletrabalho e que ir ao escritório ainda é a preferência na cidade.
As pequenas e médias empresas apresentaram a maior incidência de teletrabalhadores. ''O home office em Curitiba entra como um modelo para situações especiais. Uma pessoa em cada quatro que trabalha em tempo integral prestou serviço virtualmente no último mês na Capital'', comenta Fabián Echegaray, diretor da Market Analysis.
Apesar das facilidades, a Sobratt alerta que home office funciona muito bem quando há disciplina nos horários e divisão de tarefas, para que a vida profissional não se sobreponha a pessoal. ''É preciso se auto-educar, ter rotinas e gerenciamento de tempo. Condicionar a família que naquele espaço funciona o escritório e você está em casa a trabalho'', diz a diretora da entidade, Ana Manssour.
Ela se refere aos problemas familiares e de saúde, frequentemente adquiridos com o trabalho em casa. ''Precisa ter hora para tudo e tomar cuidado para não ficar 24 horas diante do computador, e assim evitar o estresse físico e mental.''
Comentários espontâneos da pesquisa da Market Analysis deram o mesmo sinal de alerta. Muitos entrevistados se queixaram de um certo abuso por parte da empresas quanto ao extrapolar o horário comercial. ''A disponibilidade do funcionário sempre é colocada como positivo pelo empregador, diante de um cliente dele, por exemplo'', comenta
Disciplina
O promotor de eventos Flávio Sacramento foi transferido há seis meses pela empresa em que trabalha de Brasília para Curitiba. Como viria sozinho, a solução foi alugar uma casa grande onde ele pudesse morar e trabalhar. A novidade foi bem vinda e como o ritmo de serviço aumentou, hoje ele tem uma ajudante, mas mesmo assim sente falta da equipe para trocar idéias e sugestões.
Para ele, a recompensa é a aposta da empresa em tarefa que requer tanta responsabilidade e disciplina. ''Levanto com o espírito de quem vai para o escritório. Ao chegar rapidamente na minha estação de trabalho, me desligo do resto da casa e foco em cumprir a agenda. O desafio é concientizar-se da dupla função do espaço e viver com disciplina. Se relaxar, não dá conta das cobranças naturais da empresa e a produtividade cai.''
A tentação do sofá
O relações públicas Thierry Pignataro Netto é sócio em uma empresa de comunicação interna e há sete anos trabalha em home office. O benefício foi extendido aos demais funcionários e, dos 28 colaboradores, 16 trabalham em casa e outros 11 em unidades montadas na empresa do cliente ou no próprio escritório-sede da empresa.
''A nossa empresa era pequena, e gostávamos da idéia da flexibilidade de trabalhar em casa. Uma vez por ano, perguntamos aos funcionários se desejam voltar ao escritório e o 'não' é unânime'', conta.
Como empresário, Thierry confessa que no início foi até mais fácil manter as pessoas em home office que estruturar um escritório físico, pois a operação era mantida com custos mais reduzidos. Com o tempo, virou um estilo produtivo de se trabalhar.
''O profissional que entra neste esquema demanda um perfil que apresente disciplina, resistência às tentações como sofá e um grande senso de planejamento'', completa.
Para o empresário, a carga de trabalho em casa é maior em comparação ao escritório, mas as sensações de cansaços físico e psicológico são menores. ''É importante para o profissional saber escolher o quanto e como deseja trabalhar, levando em consideração a remuneração, o aprendizado e as possibilidades de crescimento'', argumenta.
Vantagens
Não enfrentar o trânsito, vestir-se com espontaneidade, integrar vida pessoal e profissional e escolher os horários são vantagens apontadas por profissionais do ramo, que geram satisfação entre quem trabalha e clientes. ''Embora ainda não seja comum o teletrabalho no Brasil, os clientes aceitam bem e reconhecem-no como imprescindível em algumas cidades'', avalia Fabián Echegaray, da Market.
A idéia é compartilhada pela Sobratt. A instituição lançou uma campanha cuja filosofia é o deslocamento zero e a flexibilização dos horários de entrada e saída de empregados, afim de amenizar o rush. A defesa é que o home office é uma atitude de sustentabilidade e responsabilidade social, ambiental e econômico que deveria ser apoiada pelo setor público.
''Europa e Estados Unidos fornecem redução de impostos para quem incentiva a prática. Diminuir o fluxo de trânsito e gases poluentes e aumentar a qualidade de vida, são alguns exemplos para a sobrevivência humana'', enfatiza Ana Manssour.

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