São Paulo - A acirrada concorrência do mercado, aliada à pressão por resultados rápidos, faz com que muitos profissionais exagerem na dedicação ao trabalho, cumprindo longas e estressantes jornadas diárias. Para os chamados workaholics (''fanáticos'' por trabalho), a correria diária torna-se parte da vida, mas quando foge ao controle pode trazer graves problemas à saúde e à vida familiar.
De acordo com a médica Lys Rocha, professora de Medicina do Trabalho da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o número de casos registrados pelo Ministério da Previdência Social como transtornos mentais relacionados ao trabalho saltou de 482, em 2000, para 3.701, em 2005 (pelos últimos dados disponíveis), aumento de cerca de 668%.
Na opinião da médica Maria Elenice Areias, supervisora do Departamento de Saúde Mental da Universidade de Campinas (Unicamp-SP), os workaholics sofrem de síndrome da pressa e podem desenvolver compulsão pelo trabalho.
Segundo ela, são pessoas que querem executar diversas tarefas ao mesmo tempo e, por isso, estão sempre apressadas; profissionais que medem seu sucesso por conquistas materiais, o que gera desgaste físico e emocional. Como consequência, observa a médica, podem desenvolver ou agravar hipertensão, são mais suscetíveis a problemas cardíacos, sem falar em ansiedade, insônia e dores musculares.
Há formas de controlar ou minimizar o problema, ensina Maria Elenice. A primeira é praticar atividade física. Ela recomenda também alimentação rica em frutas e verduras, além de programas relaxantes, que dêem prazer, como leitura, jardinagem e afins.
Para o psiquiatra Geraldo Posseidoro, a compulsão por trabalho é tão grave quanto qualquer outra, como por jogo, sexo ou drogas, mas é socialmente aceita, já que as pessoas não conseguem viver sem trabalho.
Em muitos casos, uma terapia pode auxiliar o compulsivo a abandonar padrões de comportamento prejudiciais e adotar atitudes mais positivas no dia-a-dia. Com uma vida mais equilibrada, até a tão desejada produtividade do trabalhador compulsivo pode ser melhorada.
Confusão - A consultora de recursos humanos Iaci Rios afirma que muitos profissionais confundem a compulsão pelo trabalho com trabalhar duro. A diferença não está na carga de trabalho ou na função ocupada, mas nas características individuais. ''É preciso verificar em que medida o trabalho compromete a vida da pessoa e se assume os lugares que deveriam caber à família, ao lazer.''
Em outro nível estão pessoas que trabalham duro e muitas em funções com alta carga de estresse, mas nem por isso fazem do trabalho sua única razão de ser. Para ela, ser um trabalhador compulsivo não garante melhores resultados, mas reconhece que poucas organizações perceberam o detalhe. ''A maioria ainda valoriza a entrega do profissional'', afirma.
Segundo Iaci, uma maneira de o trabalhador voltar a ter controle sem dar sinais de perda da importância dentro da organização, é refletir sobre seu estado de ânimo. Caso esteja descontente, deve identificar o motivo da insatisfação e procurar resolvê-lo. Outra medida é fazer a relação entre o gasto de energia na realização de uma tarefa e o resultado obtido.

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