Trabalho ainda é restrito para pessoa portadora de deficiência
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domingo, 01 de setembro de 2002
Giovana Kindlein<br> Reportagem Local 
O uniforme azul da Elevadores Atlas/Schindler S.A. é o troféu da vitória para o auxiliar de produção Fábio Luiz Veodato, 25 anos. Independentemente de suas limitações, há quatro meses, desde 3 de abril, ele serve de exemplo às pessoas portadoras de deficiência auditiva, física, mental, visual e múltipla que lutam pela equiparação de oportunidades e pela quebra de paradigmas na sociedade. Fábio também carrega no currículo um número importante. É um dos 81 trabalhadores de Londrina que entraram para o mercado de trabalho nos últimos cinco meses, através do Programa de Apoio à Inclusão da Pessoa com Deficiência no Mercado de Trabalho, da Secretaria de Estado do Emprego e Relações de Trabalho (Sert).
Apesar do esforço, Londrina terceira cidade do Sul do País em população, perdendo apenas para Curitiba e Porto Alegre ainda está aquém de garantir a proteção a todos sem qualquer forma de discriminação, como prevê o artigo 7º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e de reconhecer o direito de acesso das pessoas com deficiência ao trabalho. Das 118 empresas existentes com mais de 100 funcionários em seus quadros, apenas uma, a Fiação de Seda Bratac S.A., cumpre integralmente o artigo 93 da Lei 8.213, de 24 de julho de 1991. A lei determina uma cota de 2% a 5% para a contratação de pessoas portadoras de deficiência.
A professora da rede pública e estadual, Martinha Clarete Dutra dos Santos, que atua como técnica no Sistema Nacional de Emprego (Sine), afirma que ''isto não é caridade. É o oferecimento para que a pessoa desenvolva o seu potencial laborativo''. Pós-graduada na área de deficiência e trabalho, Martinha coordena o programa de inclusão no Sine por conta de um convênio com a Sert. ''Intermediamos a colocação destas pessoas no mercado de trabalho'', esclarece a técnica.
Com 11 anos de existência e apenas três de aplicabilidade detalhada, a Lei 8.213 sofre os males de todo começo. Mesmo com a vontade manifesta de as empresas colocarem a lei em prática, o processo é dificultoso e demorado. ''A implementação depende muito de uma mudança cultural e atitudinal na sociedade'', analisa a técnica do Sine.
A nova ordem mobiliza, indistintamente, setores de Recursos Humanos de todas as empresas. Na tradicional Elevadores Atlas/Schlinder, com mais de 100 anos de existência e 4.500 empregados em todo o Brasil, não é diferente. Há um ano e meio, o grupo empresarial vêm se preocupando com a questão nas dez principais cidades brasileiras onde está sediado.
Na matriz em São Paulo, um projeto para a inclusão dos PPDs (pessoas portadoras de deficiências), está sendo desenvolvido com o acompanhamento do Ministério Público. ''São várias ações para prospectar melhor esta situação'', comenta o gerente de Recursos Humanos e Qualidade, Diloney Palumbo.
Para ele, as empresas têm dificuldade em contratar pessoas com deficiência pela ''histórica'' falta de oportunidades no mercado, impostas pelas barreiras arquitetônicas. Aliado a este fator, de acordo com o Sine, estão os paradigmas surgidos há muito tempo, como o de que ''os deficientes representavam a maldição de Deus sobre a família''. ''Hoje, esta visão está mudando'', reconhece Palumbo.
De acordo com o gerente de RH da Atlas/Schindler, se a pessoa preencher os requisitos do cargo, pouco importa se ela tem um problema fisiólogico ou anatômico. ''Não temos nenhum preconceito'', observa. Por outro lado, a empresa também não quer apenas admitir PPDs com o único objetivo de atender a legislação. Até por esta condição, o número de pessoas com deficiência ainda é pequeno no grupo.
Dos 600 funcionários da unidade em Londrina, do total de 800 que trabalham no Paraná, apenas um apresenta anormalidade decorrente de causa congênita. Com o terceiro grau completo, o evangélico Fábio Luiz Veodato tem deficiência auditiva e trabalha na produção. ''Quero ser um exemplo para outras empresas'', diz.
A pulseira metalizada do relógio e o anel de prata trabalhada revelam a personalidade segura de Fábio. Sem perder o sorriso nos lábios, ele luta para que ''o preconceito seja quebrado e enterrado''.


