Trabalhar e viver
Sentimental é alguém que acha que tudo tem valor, mas não sabe o preço de nada.(Oscar Wilde) Numa recente conferência, sobre seu tema favorito da preservação da terra e de sua biodiversidade Leonardo Boff citou os indígenas brasileiros e os maias como povos felizes sem as nossas preocupações civilizadas. Os índios brasileiros não puderam ser escravizados, entre outras coisas, simplesmente porque não conseguiam entender a função do trabalho já que, nesse nosso clima tropical, era quase desnecessário trabalhar. Segundo Boff, os maias dedicavam 47 dias por ano ao trabalho e o restante do tempo era dedicado às artes, aos rituais e às festividades. Há mais sabedoria nesses comportamentos do que na nossa verdadeira compulsão para o trabalho, que resulta na alienação afetiva, característica das nossas sociedades ocidentais.
Outro fator neurotizante é o conceito de carreira ou vocação. Quando eu era garoto, era costumeiro alguém perguntar: O que é que você vai ser quando crescer? Numa nítida sugestão de que você criança, simplesmente não existia como pessoa. Eu respondia oficial de Marinha, porque via os oficiais no cinema em impecáveis fardas brancas com botões dourados, viajando pelo mundo em navios de guerra. Quando um pouco mais tarde fui fazer testes vocacionais, deu que podia ser músico, escritor, matemático, esportista ou comerciante, o que decididamente não ajudou as coisas, mas me fez pensar em ser psicólogo pretensão essa rapidamente demolida por meu pai. O que faz de prático um psicólogo? perguntou-me. Estávamos em 1956.
Muitos anos, empregos e desempregos depois, descobri que o ingrediente básico para ganhar a vida e dar sustento decente à família objetivos de vida da minha geração não era uma vocação, mas sim a capacidade de utilizar, de forma combinada, os skills ou habilidades que adquirira ao longo dos anos. Por exemplo, naquele tempo, escrever à máquina era um dos mais importantes, e lembro de colegas que só eram capazes de escrever à mão e ficavam dependendo das secretárias. Por mais ridículo que pareça, isso resultava em que chegassem atrasados para compromissos e perdessem oportunidades profissionais importantes. Uma verdadeira insustentável leveza do ser profissional.
Acho que me tornei um fazedor, conjugando as habilidades que aprendera e continuo aprendendo. Transformar essas habilidades em elementos vendáveis, na sociedade, veio provavelmente da minha intimidade com o marketing e de um outro episódio pertinente, que ocorreu numa conversa com um empresário de propaganda, que queria me convencer a trabalhar com ele. Dizia-me: Você não imagina quanto dinheiro anda circulando por aí. Tudo o que você precisa saber é como desviar uma parte dele para o seu bolso, produzindo alguma coisa de que as empresas precisem. A percepção pode ser pouco sofisticada, mas é competente.
Acho que essa percepção é que fez com que o homem da Glasnost, Mikhail Gorbachev, dissesse, certa vez, que o mercado nasceu com a civilização, não é uma invenção do capitalismo. Ele serve para melhorar o padrão de vida das pessoas e não tem nada de contraditório com o socialismo. Muito diferente, por exemplo, do que escreveu o poeta Ezra Pound, um filho da sociedade capitalista: Nada que se escreva para ganhar dinheiro presta. Só serve o que for escrito contra o mercado.
Objetivamente, é difícil discordar da perceptiva sabedoria desses povos antiquíssimos, citados por Leonardo Boff. Trabalhar pode ser, às vezes, até agradável, mas dificilmente canaliza, de forma satisfatória, todo o nosso potencial criativo a nossa anima. É nas horas de lazer que a maioria das pessoas se revela completamente. Mas quem sabe, de certa forma, não teremos adotado um comportamento pelo menos parecido com o dos maias, ao estabelecermos uma semana de trabalho de cinco dias e um calendário pontilhado de feriados, além das férias obrigatórias?
Isso significa que numa conta rápida desconsiderando as horas de sono, distribuídas mais ou menos democraticamente pela população, dedicamos a trabalhar uns 215 dias por ano pouco mais da metade do tempo de que dispomos para viver. Isso não é nada, se considerarmos que a sociedade de consumo de hoje oferece uma variedade muito maior de opções de lazer do que as que eram acessíveis aos maias ou aos tapuias.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é jornalista, publicitário, professor e dirigente de instituição de ensino superior no Rio de Janeiro





