O sonho de David da Silva, de Uraí (26 km a oeste de Cornélio Procópio), é voltar a ter seu pedaço de terra. Ele nasceu na roça, foi agricultor e hoje é um trabalhador rural temporário.
Depois de uma frustração de safra em 2000, David teve que vender o sítio para pagar dívidas. Virou bóia-fria, sem carteira assinada, e ganha diária de R$ 20. É um privilegiado, já que a média de um bóia-fria fica entre R$ 8 e R$ 10. Assim como David, muitos pequenos agricultores vivem hoje na condição de bóias-frias. Outras pessoas que estão trabalhando na zona rural nunca tiveram um pedaço de terra, e migram de um lado para o outro a procura de serviço.
Além de desgastante, o trabalho do bóia-fria é marcado, geralmente, por falhas no cumprimento das leis trabalhistas, muitos não têm carteira assinada, acesso a educação, lazer, enfim, direitos de qualquer cidadão. A afirmação é da coordenadora da Comissão da Pastoral da Terra, na região de Londrina, Elaine Costa. Ela é uma das organizadoras da 3 Etapa do Curso para Formação para Lideranças de Trabalhadores Rurais que está acontecendo em Londrina nesse final de semana. O evento reúne cerca de 30 bóias-frias de algumas regiões do Estado, com apoio do Projeto de Educação de Assalariados Rurais Temporários.
Os bóias-frias estão discutindo formas de exigir melhores condições de vida, o cumprimento de direitos trabalhistas e a organização de líderes para representar a categoria.
Outro membro da Pastoral, Claudemir Bozzi, lembra que a principal dificuldade desses trabalhadores tem sido a exploração e a condição de semi-escravidão a que muitas vezes são submetidos. Muitos, garante Bozzi, sabem dos seus direitos, mas como o trabalho na roça é desgastante, cansativo, às vezes falta até disposição física para discutir os problemas.

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