Santa Isabel do Ivaí - O ex-diretor do Departamento de Água e Esgoto (SAE) de Santa Isabel do Ivaí (92 km de Paranavaí), Antonio Aparecido Moreno, denunciou à Folha que a nova caixa de água do município só não está em funcionamento por negligência e interesses políticos de ano eleitoral. Apontado como o algoz do surto de toxoplasmose que atingiu a pequena cidade de 9.000 mil habitantes, entre o final de 2001 e início de 2002, Moreno conviveu com sentimentos de desprezo e rancor vindo dos familiares das vítimas da doença. A toxoplasmose atingiu pelo menos 600 pessoas, provocando mortes e graves sequelas.
Em tom de desabafo, o ex-diretor decidiu falar do período mais turbulento da história do município que abrigou o maior surto mundial da doença e hoje está gravado na literatura científica internacional como referência de estudos sobre a toxoplasmose. Trabalhos realizados por pesquisadores indicaram o sistema de água como o responsável pela disseminação da doença. Moreno não aceita a culpa pelo surto, imputada pelo atual prefeito e pela maioria das vítimas.
Segundo o ex-diretor, desde 1983, a prefeitura é ciente de laudos que apontavam a precariedade da principal caixa d'água do município. A caixa é do tipo subterrânea e apresentava fissuras que propiciaram infiltrações. Além disso, antes do surto, o local abrigava uma casa de máquinas em situação de abandono. Uma gata - animal que é hospedeiro definitivo da toxoplasmose - vivia na casa com os filhotes e a ninhada estava contaminada pelo protozoário causador da doença.
O ex-diretor encara o surto no município como um misto de fatalidade e de negligência do Poder Público. ''Os pesquisadores vinham por conta própria, porque eu mesmo não conseguia estrutura junto à prefeitura, nem para coisas simples como o transporte para pesquisadores que às vezes chegavam em Maringá, mas precisavam de carro para o deslocamento até Santa Isabel'', relatou Moreno.
Conforme o ex-diretor, a administração municipal tomou uma posição de vítima da história, acreditando em paranóias como de sabotagem contra a prefeitura. ''Até a imprensa era vista como inimiga porque estaria difamando o município com as notícias sobre o surto'', disse Moreno.
O ex-diretor contou ainda que precisou enfrentar a raiva de moradores. ''Recebia ligações de ameaças do tipo 'se o meu filho morrer você também será morto' e quando chegava em locais como o clube, as pessoas paravam de falar ou se dirigiam a mim como sendo o único culpado pela situação'', relatou Moreno. ''Foi de fato uma experiência terrível'', disse o ex-diretor.
Moreno disse que foi exonerado do cargo porque denunciou o uso de dinheiro do SAE na compra de emulsão asfáltica para a operação tapa-buracos na cidade e por não concordar com um concurso público fora do padrão da Fundação Nacional de Saúde, Funasa, órgão que buscava no município um novo modelo de gestão no serviço de água.
Segundo Moreno, o SAE já tinha um orçamento pronto para a compra de hidrômetros para a nova caixa d'água. Os aparelhos servem para o cálculo de vazão e tratamento da água. ''Todo o mês sobra do SAE cerca de R$ 8 mil, dinheiro suficiente para assumir obrigações como a compra dos equipamentos necessários para o sistema'', disse. Segundo o ex-diretor, o convênio de R$ 307.200,00 firmado em 2002 entre o município e a Funasa para a construção da caixa d'água, com contrapartida de R$ 27.800 da prefeitura, previa o término da obra para o final daquele ano, mas até hoje a população continua com o antigo sistema. ''Se o dinheiro do SAE fosse direcionado para esta prioridade, a nova caixa estaria em funcionamento com todo o equipamento e tratamento adequados'', afirmou Moreno. ''Mas acontece que o prefeito quer aproveitar este ano eleitoral para a inauguração da nova caixa e assim tentar apagar a má impressão pelo surto'', disse o ex-diretor do SAE.
O prefeito Adão de Almeida Ramos (PTB) nega os argumentos de Moreno. Conforme Ramos, que administra a cidade pela terceira vez e admitiu a disposição para a reeleição, ele tem pressa em concluir a obra. ''É que estamos em busca de recursos para finalizar esta construção'', afirmou. O prefeito disse que exonerou Moreno porque ''ele é culpado pela situação, demonstrou relaxamento no trabalho e não cumpriu as metas no serviço''.

mockup