Tortura nunca mais!
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 21 de agosto de 1997
Nilson Monteiro 
Emocionado, de olhos espremidos e com versos de Bertold Brecht às mãos gorduchas, o governador Jaime Lerner realizou, anteontem, o ato político mais importante de seu governo até agora, como ele fez questão de frisar. Assinou, em meio a uma platéia que juntou homens e mulheres de diversas tendências políticas, embora a maioria pendesse para a banda esquerda, um decreto regulamentado a lei 11.255, do deputado estadual Beto Richa, que abre a possibilidade de indenização a presos políticos torturados no Paraná durante a ditadura militar. Com este decreto, Lerner e o Paraná foram mais uma vez pioneiros no País.
Lerner juntou, sob o mesmo teto e ao som do Hino Nacional, brasileiros que, na quarta-feira cinza, sentiram-se cidadãos, cientes de que a História, por mais dolorosa que possa ter sido em seu passado tão recente, há que ser resgatada. Em nome da dignidade, do conhecimento, da possibilidade desta e das novas gerações não incorrerem em absolutismos absurdos. A ditadura existiu sim. A ditadura matou sim. A ditadura torturou sim. A ditadura provocou sequelas, físicas e psicológicas, sim. E o governador paranaense, um técnico de competência internacional reconhecida mundialmente e fomentado como político por mãos que defendiam o regime instaurado em 1964, exatamente ele, que traz na testa, segundo seus inimigos, a pecha de direitista, não só foi capaz do gesto que lembra os crimes da ditadura, mas que, ao mesmo tempo, quer a paz, propõe a solidariedade, abre o entendimento em dimensões humanas, maiores, sem clichês ou crachás.
Aqueles homens e mulheres sofridos, vincados, a maioria destoando da nobreza do salão onde foi realizada a solenidade, não chegam à mitologia ou à idolatria tão heroicamente cantadas em ocasiões desta natureza. Mas, são brasileiros, que de sua forma forjaram a História e que, por isso, em vez de seu lugar na comunidade, tiveram seus direitos espezinhados, negados, ridicularizados. Os dois oradores representantes dos ex-presos políticos, Narciso Pires e Ildeu Manso Vieira, recordaram as atrocidades, inclusive as mortes dos estudantes Antônio dos Três Reis de Oliveira e José Idésio Brianesi. A vida no País mostra hoje que sua argamassa traz o sacrifício desses, de outros meninos, homens e mulheres. Lerner reconheceu isto. Vocês ajudaram a pavimentar o caminho para a democracia que hoje vivemos. Teve o endosso de homens de bem presentes ao ato, como os ex-governadores Hosken de Novaes e Otávio Cezário Júnior, entre outros que, apesar de discordarem radicalmente das tendências de esquerda, sempre defenderam seu direito de expressão.
O ato político, o mais importante, está efetivado. As almas paranaenses estão mais leves e é preciso que o Brasil saiba disto. Agora, uma comissão especial analisará as indenizações. É o de menos, não cura torturas, mas é prático. Antes disto, o secretário da Justiça e da Cidadania do Paraná, Edson Luis Vidal Pinto, já disse, na histórica tarde de anteontem, a lição elementar da inteligência: Se não respeitarmos aqueles que têm idéias diferentes das nossas, nunca construiremos a verdadeira democracia. O dia, cinza, cobria-se do véu, quente e feliz, da última quarta-feira.


