Torre de Babel
Torre de Babel
Josué Leonel
Nem governo, nem oposição. Independente do resultado final das votações na Câmara, já se pode dizer com certeza que um grande derrotado até agora tem sido quem depende da imprensa brasileira para formar opinião sobre a reforma da Previdência. A cobertura da intempestiva declaração do presidente da última segunda-feira, chamando de vagabundo quem se aposenta com menos de 50 anos, foi emblemática da forma distorcida com que uma questão que interessa à atual e às futuras gerações de brasileiros vem sendo tratada.
Para a imprensa, tudo não passa de um jogo que traz, de um lado, um presidente que só pensa em se reeleger (como se mexer em aposentadorias trouxesse dividendo eleitoral), e, do outro, uma oposição que só vota contra a reforma porque aposta no quanto pior melhor (como se apenas no Brasil oposição votasse contra o governo). Não que o termo escolhido pelo presidente tenha sido feliz e não mereça considerações por parte das colunas e do noticiário eminentemente político. Estes espaços existem para isto. Mas é simplesmente inexplicável ignorar a urgência de se discutir de forma aprofundada a questão dos limites de idade para aposentadoria, transformando-a em matéria-prima de intrigas do varejo político. Também não se tem que entrar no assunto apenas porque o presidente, inadvertidamente ou não, colocou-o no alto das páginas.
Pelo tempo que a matéria está no Congresso, todos os ângulos com que se pode discutir um modelo previdenciário para o País já deviam ter sido tratados. Mas, infelizmente, para a imprensa brasileira, parece não existir antes tarde do que nunca. Foi assim na nomeação do Serra para a Saúde, tratada apenas pelo viés PSDP X PFL, e o raio caiu no mesmo lugar. Desta vez, os jornais preferiram, nas duas últimas edições, investir na edificante tarefa de ouvir os adversários de sempre da reforma da Previdência se dizerem indignados com o impropério presidencial. Também foram ouvidos alguns governistas que, mesmo se enquadrando no critério planaltino de vagabundagem, mantiveram suas posições a favor da reforma.
Também foi óbvio os jornais mostrarem que muitos políticos, entre eles o presidente e seu principal adversário esquerdista, recebem benefícios desde idades mais tenras. Mas também não seria óbvio analisar para os leitores qual a razão (e se não há, mostrar porque) para o presidente enfatizar como exemplo a idade de 50 anos?. Por que 50 anos e não 40 ou 70? Aqui e ali, pistas são dadas para a imprensa. Um ministro lembra que o Brasil está entre os únicos seis países do Mundo que não têm limite de idade para aposentadoria. A oposição defende sua oposição dizendo que temos uma expectativa de vida baixa em relação aos países ricos, onde normalmente não se aposenta tão cedo quanto aqui.
Depois que passamos mais de uma década tentando, de pacote em pacote, reinventar a roda no combate à inflação, não seria construtivo ver no exterior o que já foi feito, e o que se pensa fazer, num assunto em que o Brasil provavelmente tem muito o que aprender? Não. Ninguém se dedicou a dizer como os alemães, americanos ou argentinos se aposentam. Tampouco lemos alguma análise fundamentada sobre a relação entre expectativa de vida e Previdência. Mas, felizmente, ficamos sabendo das últimas e relevantes notícias de Brasília sobre a idade em que FHC, Stephanes, Lula e Brizola passaram a viver do erário. Só não nos disseram se era para rir ou chorar!
- JOSUÉ LEONEL é jornalista





