Em vez do ócio, a emoção de ter o nome aclamado pela torcida. Esta foi a principal mudança na vida das gêmeas Ana Claudia e Ana Paula Alves Rosa, de 13 anos. Moradoras do Jardim Viena (zona norte), as meninas sempre conviveram com a luta da família para sobreviver. Morando com a mãe e mais uma irmã em um cômodo da casa de uma tia, elas descobriram recentemente que o gosto pela brincadeira de bola no meio da rua podia se transformar em um grande talento para o esporte mais popular do País.
Convidadas a participar do 4º Tornescolon, torneio realizado pelo Núcleo Regional de Educação (NRE) com apoio da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Ana Claudia e Ana Paula chamaram a atenção de profissionais acostumados a lidar com craques. O desempenho das irmãs ajudou o Colégio Estadual Lúcia Barros Lisboa, do Vivi Xavier (zona norte de Londrina), a conquistar o primeiro lugar na modalidade futebol suíço feminino, categoria ensino fundamental. Da competição participaram cerca de 30 escolas de Londrina e região, inclusive grandes colégios particulares.
Para Ana Paula, o que mais atrai é a alegria proporcionada pelo esporte. Uma alegria que ela quase não tem nas longas tardes que passa junto à irmã em frente à TV. ''A gente não tem muito o que fazer'', revela, confessando que ambas começaram a jogar bola escondidas do tio. ''Ele não queria que a gente brincasse com os meninos.''
A história de vida das irmãs e o seu potencial para o esporte emocionam o supervisor da escola, Júlio Dantas. ''Grande parte dos problemas de indisciplina escolar é gerada pela carência afetiva, e através do esporte podemos suprir parte desta carência. É incrível como crianças que mal têm o que comer dentro de casa conseguem se sair tão bem.'' Segundo o professor, o desempenho das irmãs melhorou em sala de aula. Elas confirmam: ''Agora a gente gosta mais de estudar''.
O diretor do colégio, Claudio Henrique de Almeida, diz que sempre que possível permite ao aluno ocupar-se dentro da escola. ''É uma maneira de aproveitarmos o potencial de cada um.'' As suspensões também foram drasticamente reduzidas na escola. ''Em vez de simplesmente suspender, vamos até a casa do aluno e conversamos com a família, dividimos o problema com os pais. Isso ajuda muito'', garante o diretor.
Mesmo as escolas que sempre conviveram mais diretamente com a violência urbana estão sentindo que os problemas comportamentais entre os alunos tiveram um crescimento sem precedentes. Há seis anos à frente da direção do Colégio Estadual Polivalente, Ney Mezzadri foi obrigado, ao final do primeiro bimestre deste ano, a mudar seu local de trabalho. Resolveu ocupar uma sala ao lado das ocupadas pelos alunos.
Com a proximidade, ficou mais fácil mostrar a eles que na escola há limites e regras a serem cumpridos. Mezzadri garante que os garotos entenderam o recado. ''Chegamos num ponto em que os professores passaram a viver num clima de medo. Hoje tenho conseguido mais coisas com afeto do que batendo de frente. A autoridade a gente não impõe, conquista.''

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