Topless pode, shorts não - Cláudia Prochet
Cláudia Prochet
Em meio a toda a balbúrdia de dimensões internacionais causada pela prática do topless nas praias do Rio de Janeiro, considerada a princípio ilegal pelo policial que efetuou a prisão, e logo em seguida, em resposta ao clamor da população e por ordem de um governador evangélico, liberada expressa e irrestritamente, surpreendeu-me a nota anacrônica sobre o uso de shorts nos estádios de futebol de Londrina.
É bem verdade que nas cidades do interior, certos modismos demoram um pouco mais a chegar e certos preconceitos custam muito a desaparecer. Até bem pouco tempo, uns vinte anos, a mulher desquitada era muito malvista e seus filhos discriminados pela sociedade local, coisa da década de 50 nas grandes capitais.
Isso acontecia porque em termos de comunicações, vivia-se quase que na idade da pedra lascada. Os filmes só chegavam aqui depois de esgotarem as apresentações nos grandes centros, os capítulos das novelas tinham considerável atraso em relação ao Rio e São Paulo, e mesmo as grandes companhias aéreas não operavam vôos diários no nosso aeroporto, fazendo com que as pessoas tivessem muito mais dificuldades para se locomoverem para os lugares onde as coisas aconteciam primeiro.
Hoje as coisas mudaram, acessa-se o mundo on line pela Internet, a TV a cabo nos dá notícias fresquinhas da Bósnia, podemos assistir ao vivo as votações no Senado, o jornal mostra-nos dia a dia o desenrolar do escândalo da Comurb, e ainda se presta atenção se as garotas usam shorts ou calças compridas nos estádios!
Observando o nosso clima e o nível cultural excelente da população, pelo menos dessa população que pode pagar ingressos para assistir aos jogos do Torneio Pré-Olímpico, tão honrosamente sediado em Londrina, deve-se entender que shorts e tops significam vestuário confortável para se enfrentar o calor, ou será que todos os rapazes vão de calças compridas e permanecem de camisas independente da temperatura elevada?
O estigma de provocação atribuído à mulher é algo muito perigoso, e ainda é muito utilizado juridicamente pelos menos escrupulosos para justificar atitudes e comportamentos animalescos como atentados ao pudor e estupros, onde se expõem as vítimas tentando transformá-las em culpadas do crime que sofreram e que só tem a ver com as mentes doentias de quem os pratica, e não com o fato de serem bonitas ou usarem saias justas. Isso quando a família tem condição de promover um processo e não prefere esconder o fato delituoso para não passar vergonha perante uma sociedade que faz dos garanhões heróis e torna as ofendidas responsáveis pelo comportamento ilícito.
A recomendação para as garotas usarem calças compridas e camisetas em estádios de futebol ou qualquer outra restrição ao vestuário só serve para aumentar ainda mais o estigma de Eva e a coação imposta às mulheres há séculos, e para boicotar as duras conquistas dos movimentos feministas deste século. Ou será que para evitar os assassinatos e as tentativas de assassinato contra a mulher, quando 65% dos responsáveis são os próprios maridos, basta retroceder ao tempo das luvas e dos chapéus, onde a mulher não tinha direito a voz ou a voto? É correto uma perna exposta ser convite à grosseria e violência?
Estamos há décadas de Chanel e sua minissaia, da invenção do biquíni, da calça Saint Tropez que colocou os umbigos de fora, das praias de nudismo e natureza, e a única coisa que não mudou e é inerente ao ser humano, é que todos gostam de ser admirados, homens e mulheres que movimentam a indústria da beleza e da moda, que a cada nova estação coloca nas passarelas da vida uma geração mais bonita que a anterior, onde a saúde, a alegria e o frescor da juventude serão notados independente do traje.
E aqueles que, frustrados pela impossibilidade natural de serem perfeitos, julgam-se em desvantagem estética, não deixem que a inveja os transforme em aliados de desequilibrados, incapazes de ver a beleza como um presente de Deus e não como uma agressão. Viva o shorts, viva a miniblusa, viva o topless, a cintura baixa. Viva também a cirurgia plástica, a lipoaspiração, o spa e a academia de ginástica...





