Tombo na lama
A suposição de Celso Pitta de que não seria atingido pela CPI dos Títulos Públicos (‘‘sairei incólume de tudo isso’’) parece cada vez mais improvável. O emaranhado de contradições em que o prefeito paulistano está envolvido parece conduzi-lo a um beco sem saída.
Politicamente, o desastre atinge seu patrono e antecessor, o ex-prefeito Paulo Maluf, candidato declarado à sucessão de Fernando Henrique. As tramóias que estão sendo investigadas, e que já permitem aos senadores acreditar no envolvimento de Pitta, foram concebidas e praticadas ao tempo da gestão Maluf, quando o atual prefeito era secretário de Finanças da prefeitura.
Maluf está em Paris, circunstancialmente longe dos holofotes das TVs e do ardor da batalha. Oportuna retirada. De lá, porém, coordena a dramática tentativa de estabelecer uma estratégia de defesa para seu pupilo. Não é fácil. O episódio do carro alugado para a mulher do prefeito, pago pelo Banco Vetor, envolvido nas irregularidades dos precatórios, é uma dessas mancadas banais que, uma vez descobertas, não viabilizam nenhuma explicação.
O senador Roberto Requião, relator da CPI, chegou a pilheriar, referindo-se à sinuca em que está o prefeito. Disse que sua única saída, no caso do aluguel do carro, era alegar que não conhecia a própria esposa, beneficiária da mordomia. Depois, a esposa do prefeito fez o resto: deu uma explicação diferente da do marido para o acontecimento.
Importa aqui, porém, menos a investigação da CPI e mais os efeitos políticos que está produzindo. Paulo Maluf tinha planos de, uma vez livre dos encargos da prefeitura e fortalecido pela eleição de seu sucessor, tornar-se uma espécie de fiscal itinerante do governo Fernando Henrique. Vinha ensaiando um discurso crítico-moralista, na linha da falecida UDN. Ele, que iniciou sua carreira política defendendo-se de acusações de corrupção, sentia-se como que purificado por duas vitórias eleitorais seguidas: sua eleição para prefeito e a eleição de seu sucessor, quando venceu simultaneamente o PT e o governo Fernando Henrique. Estava mais que credenciado para ocupar um lugar de destaque na arena política sucessória.
Fernando Henrique o temia, mais talvez que a qualquer dos potenciais adversários de 1998. Maluf, afinal, conseguiu seduzir parcela ponderável da classe média e do empresariado paulistanos com sua reputação, construída e azeitada por meio de implacável marketing político, de administrador eficaz, tocador de obras incomparável.
O tombo de Pita no mar de lama dos precatórios compromete todas essas conquistas e, a menos que algo de extraordinário inverta o que aí está, deixa Fernando Henrique novamente isolado no ranking dos futuros presidenciáveis.
- RUY FABIANO é jornalista em Brasília.

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