Toma-lá-dá-cá
Com as devidas desculpas aos doutos senhores da academia, um pouco de respeito é fundamental. Em outras palavras mais acadêmicas talvez a população, na sua média, não aprova concessões de recursos públicos em troca de apoio a projetos do governo e muito menos para impedir investigações em torno de indícios de má-conduta por parte de seus integrantes.
Traduzindo em palavras menos acadêmicas talvez a turma não admite o toma-lá-dá-cá. Não tolera que políticos sejam engraxados com verbas para aprovar coisas de interesse do governo. Muito menos que o governo use toda a sua força para barrar a CPI da Corrupção, quando só se fala nisso.
Essa é a ética do Parque D. Pedro , em São Paulo; da Rua da Praia, em Porto Alegre; da Praça Mauá, no Rio de Janeiro; do Largo do Rosário, em Campinas; dos lugares onde o povo está. Se a política deve ou não ser ética, pode ser tema de divertidos encontros de professores que estudam o comportamento das sociedades e o pensamento humano, mas, seguramente, não é o centro das preocupações da tigrada na fila do ônibus. Por isso, está pegando mal a operação abafa, apesar de todas as interpretações, das mais pertinentes, aliás, sobre tal procedimento.
Mas, se existe ojeriza em relação a esses métodos, por que eles são utilizados? Simples: porque o governo precisa governar. Ou, pelo menos, precisa manter a cabeça fora dágua para ir levando até o final. É verdade que também existe a aposta na memória fraca do eleitor e a sua sensibilidade para o curto prazo. Principalmente se alguma pirueta é feita na última hora para que o pessoal possa, se não acertar, pelo menos dar uma aliviada no sufoco do fim do mês.
A dificuldade é que não se vislumbra, por enquanto, nenhuma possibilidade de pirueta dentro de um cenário de crise mais ou menos cabeluda. Nem mesmo uma prestidigitação de mágico que tire frangos, dólar estável, iogurte e emprego da cartola está prevista. Histórias de Mandrake que funcionaram na reeleição, mas agora não empolgam mais.
Tudo, ou talvez em grande parte, porque nós vivemos num sistema que pode ser chamado de presidencialismo de coalizão. Maldito presidencialismo de coalizão que pode pôr a perder os 20 anos de leite e mel que seriam proporcionados pelos tucanos no poder. É que eles devem ter se esquecido que prometeram refundar a política do País. E na correria do dia-a-dia da política realista trocaram a refundação pela reeleição.
O presidencialismo de coalizão funciona desde 1946, tendo sido interrompido apenas na ditadura. E quer dizer o que tudo mundo já sabe: o governo eleito monta seu esquema, faz maioria no Congresso, através da distribuição de cargos, de verbas e vai tocando a vida. No governo Fernando Henrique, o sistema deu certíssimo no primeiro mandato. Tudo o que o governo queria foi aprovado. E é bom salientar: o que não passou no Legislativo foi porque o governo não quis. A tríplice aliança formada por PSDB, PFL e PMDB funcionou às mil maravilhas. Segundo FHC, foi preciso avançar com o atraso, uma ironia da história, mas tudo bem.
A turbulência começou quando a família, tão unida, começou a se desentender. Brigas sempre aconteceram. E qual família não briga? O problema é que o chefe de um grupo queria botar na cadeia o chefe de outro grupo e vice-versa. Fica difícil assim. E teve mais: são Pedro não ajudou. E não mandou chuvas para evitar o racionamento de energia. A parede perdeu o prumo.
Então estamos em crise. Chegamos a ela de supetão. Sem nem mesmo um pedido de desculpas. Agora a luta vai ser séria pela sucessão. Uma briga onde o governo diz que a oposição é burra. E a oposição diz que o governo é incompetente. Sem que ninguém chegue a um meio termo.
Mas uma coisa é certa: o presidencialismo continuará de coalizão. Nenhum presidente eleito conseguirá se reeleger fazendo maioria com seu próprio partido. A coalizão precisa ser montada para governar, por isso é preciso pensar seriamente nas alianças. Porque é fatal: sem maioria não há condições de governabilidade.
De quebra, o próximo presidente pode prestar atenção nessa crise e arrumar um jeito para que o Congresso não se sinta tão diminuído, os parlamentares não fiquem permanentemente nesse estado de baixa estima. Que tal se as Medidas Provisórias não fossem produzidas por atacado? Ou mesmo se os parlamentares pudessem ter mais margem de manobra? Nada absurdo, só mais um pouquinho.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo





