TOLERÂNCIA ZERO - Álcool é problema de saúde pública
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Thiago Nassif<BR>Reportagem Local 
O Governo Federal criou polêmica ao sancionar a Lei de Tolerância Zero contra o álcool. A partir de agora, o motorista que for surpreendido com qualquer nível de álcool pelo bafômetro será multado em R$ 957,00 e perderá o direito de dirigir por um ano. Se de um lado a medida desagradou os donos de bares, caiu nas graças de quem defende o consumo consciente.
É o caso do médico neurologista Ricardo Texeira, que garante que a tolerância zero é a única forma de controlar os motoristas. Em entrevista à FOLHA, ele afirma que o governo deveria investir mais na divulgação das novas regras e dá conselhos aos ''beberrões de plantão'' sobre os efeitos da bebida alcoólica.
O senhor é favorável à Lei de Tolerância Zero?
Sou absolutamente a favor e devemos apoiar a nova lei, já que ela certamente reduzirá o número de mortes atribuídas à ingestão de bebidas alcoólicas. É bom lembrar que metade dos acidentes automobilísticos fatais é relacionada ao consumo de álcool. Há tempos devemos encarar o álcool como problema de saúde pública.
Mesmo com a falta de bafômetros e de policiais suficientes para fazer a fiscalização, o senhor acredita que a Lei vai pegar?
Não adianta haver lei se a população não tiver a sensação de que pode ser fiscalizada a qualquer hora. Por isso a blitz é muito importante. Temos estimativas de que a realização de mil testes de bafômetro por dia reduz em 6% os acidentes graves e 20% o número de acidentes noturnos envolvendo um único veículo.
Não vimos nenhuma inserção imediata nos meios de comunicação tratando das novas regras. O governo não estaria sendo omisso?
Ainda há muita desinformação. Ao olharmos os noticiários, vemos confusão nos novos limites de álcool permitidos. Faz parte do programa do governo um projeto de educação da população, mas o ideal seria que as ações educativas viessem simultaneamente ao início da aplicação das penalidades. Melhor ainda: antes mesmo da lei começar a valer. A Inglaterra implantou uma campanha de consumo consciente, mostrando à população quanto de álcool tem em cada dose das bebidas mais populares e quais os limites seguros. No Brasil, este é um momento oportuno para melhor educar a população sobre os limites de segurança do consumo de álcool, não só em relação aos riscos de acidentes de trânsito.
Quais conselhos o senhor daria aos motoristas e beberrões de plantão?
Cada um tem o direito de fazer o quiser com a sua vida. Entretanto, beber e dirigir pode interferir na vida dos outros. Além dos acidentes de trânsito, o consumo de álcool está associado a mais de 60 diferentes tipos de doenças. No Brasil, o álcool é responsável por cerca de 10% dos nossos problemas de saúde. A lei é importante e não foi feita para convencer os apreciadores da cerveja gelada que o álcool é um inimigo inflexível, pois sabemos que seu uso moderado pode até mesmo nos trazer benefícios. O consumo consciente é que é fundamental para preservar nossa saúde, nossa vida e a vida dos outros.
Quanto tempo o organismo precisa para eliminar o álcool do sangue?
O organismo elimina aproximadamente 0,10 gramas por litro de álcool a cada hora. Mas o nível de concentração de álcool no sangue (alcoolemia) depende muito do sexo e peso do indivíduo, se esse indivíduo tem ou não o hábito de beber e se a bebida foi consumida junto às refeições ou em jejum. Uma taça de vinho de 250 ml pode provocar uma alcoolemia de cerca de 0,8 gramas por litro em uma mulher de 50 quilos em jejum, enquanto a alcoolemia de um homem de 80 quilos que toma essa mesma taça à refeição não passa de 0,3 gramas por litro. Ao mesmo tempo que uma pessoa pode precisar de três horas para eliminar do sangue o álcool de uma taça de vinho, outra pessoa pode precisar de oito horas.


