'Todos podem ser vítimas de ações terroristas'
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de novembro de 2015
Loriane Comeli<br> Reportagem Local 
Os atentados em Paris no último dia 13, somados a outros atos terroristas praticados pelo Estado Islâmico (EI) nos últimos meses incluindo a derrubada de um avião russo no Egito e os ataques a bomba na capital libanesa , devem unir potências bélicas em torno da derrota da organização terrorista, estabelecida em parte da Síria e do Iraque. Porém, mesmo fortemente armadas, essas potências devem encontrar dificuldades em vencer o EI, que tem sua origens ligadas à Al-Qaeda.
A avaliação é do professor da área de Ciência Política e Relações Internacionais do Departamento de Ciência Política e Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Alexsandro Eugenio Pereira, que é doutor em Ciência Política, editor-chefe da revista Conjuntura Global e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da UFPR.
Pereira lembra que o combate a organizações terroristas desafia os maiores arsenais do planeta, citando as intervenções americanas no Iraque e no Afeganistão após o 11 de setembro de 2001 e creditando, inclusive, o surgimento do Estado Islâmico ao insucesso da ação dos Estados Unidos no Iraque. Por isso, o mais indicado pelos especialistas é uma ação terrestre nas áreas ocupadas pelo grupo terrorista.
Como surgiu o Estado Islâmico?
O Estado Islâmico foi criado como organização vinculada à Al-Qaeda de Osama Bin Laden, estabelecida a partir de 2003 no Iraque com o propósito de lutar contra a ocupação dos Estados Unidos. A organização foi enfraquecida na luta contra as tropas americanas por causa da rejeição, entre os sunitas, dos seus métodos violentos e brutais. A partir de 2010, a organização foi reconstruída por meio da liderança de Abu Bakr al-Baghdadi. Em 2013, um dos seus propósitos foi a luta contra o presidente sírio Bashar al Assad. A união das milícias que atuavam no Iraque com as milícias que passaram a atuar na Síria contra o presidente Bashar al Assad formou o Estado Islâmico. O Estado Islâmico deu prosseguimento à luta da Al-Qaeda contra os Estados Unidos e os países aliados e pode ser interpretado como resultado da luta contra a ocupação americana do Iraque. De certa forma, o Estado Islâmico é uma resultante da presença americana no Oriente Médio, mas com uma particularidade importante em comparação com a Al-Qaeda: o controle de partes dos territórios do Iraque e da Síria, gerando a fundação de um estado não reconhecido pelas Nações Unidas. A Al-Qaeda, por sua vez, é uma organização terrorista transnacional, cuja atuação não está circunscrita ou limitada a um território específico, tendo em vista que ela forma grupos treinados de terroristas que agem em diversas partes do mundo. O Estado Islâmico possui, também, grupos treinados. Seu propósito, no entanto, é controlar territórios não apenas na Síria e no Iraque mas, também, em todo o Oriente Médio e no Norte da África. Os seus membros são formados a partir dos grupos religiosos existentes no Iraque, em particular os sunitas. O Estado Islâmico tem mostrado capacidade de recrutar um número significativo de estrangeiros. Os dados são controversos, no entanto. Algumas fontes afirmam que haveria mais de 10 mil estrangeiros entre os membros do Estado Islâmico.
Quem financia o EI?
A ocupação dos territórios no Iraque e na Síria fornece recursos para a organização do Estado Islâmico, por causa da venda de petróleo e gás dos campos controlados pelo EI.
Alguns analistas dizem que o EI vem perdendo território e força. Dá para fazer essa leitura após os atentados na França? O EI já atacou russos, libaneses e, agora, franceses. Haverá uma reação conjunta, que pode unir (novamente) russos e americanos? A Síria e o Iraque não conseguem derrotá-lo?
Em termos. Antes dos atentados em Paris, o Estado Islâmico estava enfrentando grandes potências bélicas, como Estados Unidos e França. Por mais recursos financeiros e humanos que o Estado Islâmico possa mobilizar, é extremamente complicado enfrentar potências bélicas do porte dos Estados Unidos e da França. Certamente, o Estado Islâmico enfrentará maiores dificuldades para lidar com a reação das principais potências mundiais, como Estados Unidos, Rússia, França e Reino Unido após os atentados em Paris. A derrubada do avião russo no Egito e as ameaças ao Reino Unido podem produzir um consenso entre essas potências com força suficiente para enfraquecer, significativamente, o Estado Islâmico. Mas a experiência frustrada dos Estados Unidos no Iraque mostrou, por outro lado, a dificuldade enfrentada pela maior potência bélica do mundo atual para controlar populações e territórios dominados por organizações islâmicas, como o EI. Essa dificuldade faz com que muitos analistas entendam que não basta promover ataques "cirúrgicos" contra alvos estabelecidos pela inteligência militar. Sempre há um risco de produzir efeitos colaterais, como a morte de civis, como ocorreu recentemente. Esses analistas sugerem que é necessária a atuação terrestre com tropas capazes de controlar efetivamente o território. Essa atuação, no entanto, produzirá baixas militares com custos políticos que precisarão ser administrados junto à opinião pública nacional e internacional. Os americanos são um bom exemplo disso. Além dos custos financeiros elevados da ocupação do Iraque, os resultados práticos alcançados pela intervenção militar, a crise econômica e a redução do apoio da opinião pública à ocupação contribuíram para a saída dos Estados Unidos do Iraque. A Síria e o Iraque dependem da intervenção das grandes potências, pois são estados enfraquecidos pela crise política e pelo insucesso da ocupação americana, respectivamente.
Grupos terroristas, como o Boko Haram, fazem dezenas de vítimas na Nigéria. Por que a comoção na França e em países ocidentais parece maior?
Além do Boko Haram, podemos mencionar o atentado no Líbano uma semana antes dos atentados em Paris, no dia 13 de novembro. Esse atentado gerou a morte de 43 pessoas e deixou mais de 200 feridos. E a queda do avião russo provocou a morte de mais de 200 pessoas. Os atentados em Paris receberam maior atenção dos meios de comunicação e da comunidade internacional por se tratar de ações contra uma grande potência bélica e econômica que, ao lado da Alemanha e do Reino Unido, forma o centro dinâmico da União Europeia. Esses atentados evidenciaram uma das principais características do terrorismo: a falta de discriminação das suas vítimas. Em outras palavras, todos podem ser vítimas de ações terroristas, o que amplia consideravelmente a sensação de medo e de insegurança entre os indivíduos, tornando possível a violação de direitos civis em nome da proteção contra o terrorismo. Mesmo países mais desenvolvidos, com sistemas de vigilância e controle dotados de alta tecnologia, não se mostraram capazes de enfrentar uma ameaça que não pode ser combatida pelos meios tradicionais comumente empregados pelos estados: a utilização da força bélica contra outros estados. A resposta francesa aos atentados em Paris lembrou muito a intervenção americana no Afeganistão em 2001, logo após o 11 de setembro. Esses meios tradicionais não foram bem-sucedidos, como mostraram as experiências do Iraque e do Afeganistão.
Por que a França foi escolhida como alvo? Qual seria o próximo alvo do EI? Uns falam dos EUA; outros mencionam a Itália.
A França foi escolhida como alvo em resposta às intervenções francesas contra o Estado Islâmico na Síria. A França pode, novamente, ser alvo de novos atentados por causa dos ataques realizados pelos franceses após os atentados de Paris. É difícil estabelecer qualquer prognóstico, mas os alvos privilegiados pelo Estado Islâmico serão potências ocidentais, como a França, os Estados Unidos e até o Reino Unido. Elas são combatidas pelo EI como parte de um conflito que dura muito tempo entre parte do mundo islâmico e o Ocidente, que ameaça o modo de vida, as concepções religiosas e a cultura islâmicos. Entre o mundo islâmico e o Ocidente existe uma falta de compreensão mútua, agravada significativamente pela violência praticada pelo Ocidente contra o mundo islâmico, não apenas nas intervenções militares. É preciso observar, também, as formas de violência indiretas e diretas praticadas dentro dos países europeus na convivência entre europeus e muçulmanos. Por mais que o discurso de muitos países europeus como a França mostre-se favorável à convivência entre identidades religiosas distintas, essa convivência é marcada por muitas tensões. Cresce em países como a França e a Itália um sentimento de islamofobia. A extrema direita nesses países vem crescendo de forma significativa e, com ela, o discurso islamofóbico que alimenta as tensões e produz cada vez mais violência contra os cidadãos europeus de origem muçulmana.
Alguns defendem uma intervenção terrestre no território do EI - não apenas bombardeios - e uso da inteligência para derrotar os líderes do EI. O que o senhor pensa sobre isso?
Concordo com essas análises, pois ataques localizados não serão capazes de derrotar o Estado Islâmico, como mostrou a experiência americana no Iraque. O surgimento do Estado Islâmico e o seu fortalecimento nos últimos anos ocorreram por causa do insucesso da intervenção americana no Iraque. O sucesso de uma intervenção pode ser avaliado pela capacidade de um estado ou de uma coalizão de estados de realizar uma ocupação capaz de estabelecer a ordem, reduzindo os conflitos e a guerra civil, reconstruir a infraestrutura e contribuir decisivamente para a construção das instituições políticas estatais.
Por que o islamismo é, ou parece ser, o pano de fundo para organizações terroristas como o EI, a Al-Qaeda e Boko Haram, por exemplo?
Os membros dessas organizações citadas são vinculados ao islamismo. Mas, historicamente, organizações terroristas ou não se formam orientadas pela luta contra a opressão ou pela conquista de autonomia e autodeterminação. O recurso à violência pode ou não ser uma estratégia utilizada por essas organizações. Mas é preciso evitar generalizações que possam associar o terrorismo ao islamismo e, com isso, produzir o aumento do preconceito, da xenofobia e da violência. Em parte, essas organizações estão em evidência na mídia e na comunidade internacional pela importância dos países do Oriente Médio, que são relevantes por causa do petróleo, que é um recurso natural essencial para a economia mundial. Os conflitos existentes nessa região têm uma importância maior para os cálculos estratégicos das grandes potências. Elas, no entanto, se mostram incapazes de contribuir para a solução desses conflitos. Muitos meios utilizados para enfrentar o terrorismo atualmente são ineficazes e inócuos, produzindo os elementos que geram a reestruturação de novas organizações como o Estado Islâmico. As potências ocidentais não se mostraram interessadas ou capazes de enfrentar as causas fundamentais do terrorismo promovido por essas organizações. Essas organizações se formaram, em parte, como resultado de uma reação às intervenções das grandes potências em países do Oriente Médio, que agravaram as condições econômicas das populações que vivem em países afetados por essas intervenções. Enquanto elas insistirem em utilizar a força bélica contra populações fragilizadas pela guerra civil, as organizações terroristas continuarão a se reestruturar e a se reinventar. O terrorismo praticado pela Al-Qaeda e pelo EI se alimenta da pobreza, da reação às ações militares das grandes potências e dos conflitos religiosos próprios do islamismo, dentre outros fatores.


