Quando o presidente Lula anunciou o propósito de cortar gastos da máquina pública, atingindo os três Poderes, a reação contrária nesses círculos foi imediata. Todos pedem economia nas despesas governamentais, mas que seja na conta dos outros. Com o fim da polpuda receita anual de R$ 40 bilhões da CPMF e mesmo com o aumento da alíquota do IOF prevendo recuperar R$ 10 bilhões no correr de 2008, o Planalto planeja cortar R$ 20 bilhões por ano nos empenhos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, mas o que aconteceu foi o que se esperava: a contra-ofensiva de Câmara e Senado e dos tribunais de Justiça.
O plano desses Poderes, como a imprensa divulgou, era realizar mais obras desnecessárias, como a reforma já prevista de gabinetes e a construção de anexos e outros gastos do gênero. Percebe-se que nessas horas escasseia o espírito público e o patriotismo, porque quando é reclamado um esforço coletivo (e nem se pode falar em sacrifício, porque no essencial nada será cortado), a rejeição manifesta-se imediatamente. Ao menos quanto a isto age certo o presidente da República. Ele declara, com razão, que ''é preciso cortar na veia'', mas se ainda se deve acreditar em seu poder de mandante supremo, a hora é de endurecimento, porque os setores visados envolvem parlamentares e ministros dos tribunais, portanto forças poderosas.
Lula refere-se também aos bancos, mas revela ingenuidade ao dizer que estes não reclamam do aumento da Contribuição sobre Lucro Líquido porque ''tiveram muito lucro nestes últimos anos e podem pagar um pouco mais''. Todos sabem que os bancos não irão pagar nem um centavo além, porque simplesmente repassam tudo para as contas dos clientes. É sempre o povo que paga, porque - embora anuncie - o Governo não corta nada das dezenas de cobranças que os bancos fazem da clientela sob a denominação de ''serviços''.
O fato novo é o partido Democratas entrando no Supremo Tribunal Federal com ação direta de inconstitucionalidade contra os aumentos do IOF e da CSLL para o setor financeiro. O argumento é que se trata de bitributação e que a cobrança não tem validade dentro do ano. Ainda repercute nos partidos da oposição a ironia do ministro Guido Mantega de que a promessa de não aumentar impostos ''só valia para 2007''. Esta frase com sabor de deboche foi ressaltada, na ocasião, neste Editorial, como afronta aos cidadãos. Uma nova batalha se trava, com duas barreiras que o Governo tem de enfrentar: essas ações de inconstitucionalidade, que o STF irá votar, e o corajoso propósito presidencial de cortar R$ 20 bilhões nos gastos das instituições citadas.

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