Como é difícil, às vezes, ter o sistema nervoso estendido, em rede, por satélite, nesta aldeia global, globalizada. Não bastavam nossos próprios problemas, os de nossa casa, de nossa rua, de nosso bairro, cidade, Estado, país... Pareciam ser suficientes para nos ocupar a existência, a lida cotidiana, na busca de respostas, soluções, reações. Porém, os meios de comunicação nos permitiram trocar informações com outras casas, outras ruas, outros bairros, outras cidades, mas de outros países, continentes, hemisférios. E vimos que boa parte dos problemas são iguais - ao menos, aqueles decorrentes de fragilidades humanas - fragilidades morais, éticas. Vimos isso hoje, agora-agora, na televisão. Uma questão, dentre tantas, do começo da história da humanidade: a luta por espaço territorial. Como é antigo isso. Pois espaço é poder e poder é espaço - e quanto já se matou por causa disso, ao longo de séculos e séculos. Essa luta continua a mesma.
Quem ligar o televisor, no noticiário, terá oportunidade de verificar a crise das últimas horas, em Kosovo, na Iugoslávia. Se tiver antena parabólica ou cabo, nem precisa esperar o telejornal. Assistirá, direto, ao vivo, em cores, à ação dos militares da OTAN, dos soldados sérvios, dos guerrilheiros albaneses. E verá a fuga dos civis albaneses, deixando suas casas, partindo a pé, carregando nas costas só o que deu tempo de pegar, e sujeitando-se a marchas forçadas, arriscadas, na neve, no frio, sob chuva, até alcançar um campo de refugiados. É a sequência dos conflitos étnicos que têm assolado aquele país, desde a morte do marechal Tito e do socialismo soviético.
Sejam brigas históricas, sejam ideológicas, seja puramente a ambição do poder pelo poder, o que é que poderia fundamentar a maneira como os sérvios têm tentado varrer os albaneses do território kosovar? Estão repetindo os modos com que enfrentaram os croatas e os muçulmanos, na primeira crise depois da dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Além de espancar, fuzilar, trancafiar os inimigos em campos de concentração, os sérvios lançavam mão de um terrível expediente de ‘‘guerra psicológica’’: praticavam estupros generalizados. Estupravam meninas, moças, senhoras, anciãs, e meninos, moços, homens, anciãos... sempre com a intenção de quebrar a estrutura moral dos adversários. E o mundo pôde testemunhar o grau de abatimento emocional das vítimas do tal ‘‘expediente’’. Agora, os refugiados albaneses, os que conseguem chegar com vida aos campos de abrigo feitos pela Otan e pelos países vizinhos, estão denunciando estupros cometidos por soldados sérvios, dentro dos lares albaneses, obrigando os familiares a assistir à violência...
Deixando de lado o que pode ser propaganda de guerra, informação e contra-informação, o fato notório é o ódio existente entre radicais de ambas as etnias. Curiosamente, esse ódio tem a mesma química de todos os ódios do mundo. É o ódio que o motorista brasileiro sente pelo outro motorista, que lhe cortou a frente ou lhe deu uma buzinada. É o ódio que há entre duas torcidas rivais de futebol. Lógico, varia a intensidade, a dimensão, todavia o resultado, não raro, é também a morte de alguém. O ódio faz com que o referido motorista perca o autocontrole por um instante, tempo suficiente para sacar a arma que estava no porta-luvas e, sem considerar o pai de família que estava à sua frente, descarregar-lhe um tambor inteiro no peito. O ódio faz com que gangues das tais torcidas inimigas linchem pessoas que apenas cometiam o crime de estar vestindo a camisa do seu time preferido.
A mentalidade que permite, estimula, condiciona o comportamento do tresloucado motorista, ou dos abilolados torcedores, é a mentalidade que condiciona o comportamento dos radicais sérvios e albaneses.
Quem não for diplomata nem soldado das forças internacionais, e quiser fazer alguma coisa pelas vítimas de Kosovo, Rogovo e cidades atingidas pela guerra nos Bálcãs, pode começar por uma sincera autocrítica. E, a partir disso, o interessado deve tentar desarmar-se interiormente, desengatilhando e desmuniciando seus ódios. Alguns, quem sabe, acabarão tirando o revólver do porta-luvas do carro e entregando a arma na delegacia de polícia mais próxima.
Pode parecer pouco, mas em termos de mentalidade social é muito. Um a menos na agência do ódio é um a mais na agência da pacificação.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba

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