Todos com medo de todos
Walmor Macarini
Quando uma nação está intranquila, todos têm medo de todos. Vivemos hoje no Brasil um clima de medo. O trabalhador tem medo de perder o emprego, e por isso ele teme o empregador. Este, que gera o emprego, tem medo de não cumprir os compromissos de cada fim de mês, e teme o empregado, que pode mover-lhe uma ação trabalhista. O empregado, com o temor de ser despedido, tem medo de lhe faltar o sustento em casa; teme escassear-lhe o dinheiro do aluguel, por isso o dono do imóvel é que lhe assombra a mente; teme faltar-lhe o dinheiro da água e da luz, por isso fica com medo do funcionário que chega para cortar-lhe esses benefícios. Quem tem doentes em casa teme faltarem os meios para a compra do medicamento.
O empregador teme a ausência do freguês e teme o gerente do banco. Este, porque tem salário alto, teme ser substituído a qualquer momento. A mãe teme as más companhias dos filhos. O cidadão, no repouso de seu lar, teme a visita do assaltante. O motorista das estradas teme o policial rodoviário; o motorista da cidade teme o policial multador. O cidadão comum teme o bandido com a mesma intensidade que teme a Polícia. A Polícia teme o marginal perigoso. O aluno teme repetir o ano e por isso teme o examinador. O fiel teme o pregador; o pregador teme perder os seus fiéis. O dono de terras teme o invasor; o invasor teme pela segurança de sua família.
O empresário teme o governo. O que emite cheques pré-datados teme não honrar o compromisso; quem os recebe teme a inadimplência do emitente. O empregador teme o sindicato. O idoso teme o abandono. O mutuário teme perder a casa e vislumbra a figura sinistra de alguém, na repartição, que um dia chegará com uma ação de despejo, e às vezes essa pessoa é tão inadimplente quanto ele, mas que de sua vez teme a ordem do chefe. Empregados temem seus chefes, estes temem seus superiores, os superiores temem os demais acionistas.
A mulher teme o homem por causa da Aids, o homem teme a mulher por causa da Aids.
O anverso do medo não é a coragem, porque a coragem é uma forma de medo, eis que o enfrenta, e com temor. Quem tem medo ataca.
E ainda nos ensinam que temos que temer a Deus...
O anverso do medo é o amor. Medo e amor são as polaridades que governam as condutas humanas. O medo é do ego, o amor é do conhecimento. Não o amor-apego, não o amor-paixão, não o amor-ciúme, mas o amor-amálgama, que nos conecta com a Mente do Criador.
Estamos com medo porque estamos separados. Apartamo-nos do princípio da coirmandade, e nunca nos acertaremos se não nos olharmos como iguais. Quando atacamos um nosso igual, atacamos a nós próprios; quando alguém nos ataca, está atacando a si mesmo.
Amor, então, é esse elevado grau de compreensão de que somos feitos à mesma imagem e semelhança d’Aquele que nos criou. Se ferimos a um dos iguais, ferimos ao Criador, pois somos Ele, e Ele é nós. Mergulhados em nossos sistemas de pensamento, somos tragados pelo ego, que não tem nenhum poder real, mas terá se essa for a nossa crença.
Não devemos enxergar culpa em nossos iguais, porque isto é uma qualidade do ego, não do conhecimento. No conhecimento não há culpados. Devemos contemplá-los como libertos, para nos libertarmos também; mas ao contrário, os envolvemos numa pesada densidade de culpa, e assim os afundamos mais na escuridão, e juntos vamos nós.
Sentimentos de culpa, em nós e sobre os outros, cegam-nos, e assim não permitimos que penetre a luz do conhecimento.
Se negamos um irmão negamos o Pai, pois abominamos a sua criação, e ao abominá-la abominamos a nós próprios, pois consideramos imperfeita a sua obra.
A separação se implantou quando passamos a habitar o império do ego, mas nossa casa é – e sempre será – a eternidade. Se nos atrasamos nessa compreensão, atrasamos a humanidade inteira. Enquanto um ficar, o rebanho não estará completo.
Temos uma incrível dificuldade em amar nossos iguais, e uma supreendente facilidade em odiá-los. Ódio atrai ódio e semeia ódio; amor atrai amor e semeia amor.
Por estes dias estamos assistindo a muitas manifestações de anseios pela paz. A intenção é sincera, mas os métodos são equivocados. Porque se percebe que as mentes estão carregadas de revolta e há no ar um clamor de justiça. As pessoas não querem a paz, querem punição. No seio de um povo já tão carregado de negatividades, motivadas pelos seus próprios temores, esses manifestações não trarão paz, porque elas não estão nutridas de sentimentos de paz.
Ainda o ego a prevalecer sobre o conhecimento. Quando aprendermos a fazer essa reversão, aí já estaremos na paz.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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