Limpar constantemente a casa, organizar armários com precisão milimétrica, não pisar nas divisões das calçadas, lavar as mãos várias vezes ao dia. Praticamente todo mundo tem manias, sejam elas banais ou inusitadas. Mas o que a princípio parece apenas um traço da personalidade, pode se tornar um distúrbio psiquiátrico. É quando os rituais cotidianos e os hábitos se transformam em Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).
Segundo a psicanalista Zilah Brandão, a confusão entre mania e TOC é bastante grande entre a população. Muitos pacientes não reconhecem que sofrem de um distúrbio e, por outro lado, algumas pessoas consideram que o possuem sem que isso seja verdade. A FOLHA conversou com a profissional para entender quando nossos hábitos são normais e quando precisamos procurar ajuda para nos livrarmos deles.

Mania é uma coisa que todo mundo tem?
Quase todo mundo. Alguns têm mais, outros menos, mas quase todos têm. Mas é preciso saber onde termina a mania e começa a doença, porque as pessoas não sabem. Muita gente que possui TOC demora para aceitar porque imagina que ele é apenas uma mania. É normal dizermos: aquela pessoa tem mania de limpeza, aquela outra é perfeccionista.

E quando isso se transforma em um problema?
É quando a pessoa não consegue mais não fazer algo que se sente impulsionada a realizar. Por exemplo, se você tem mania de organização, quando chega ao ponto de se as coisas não estiverem em ordem você não conseguir trabalhar, dormir, relaxar. A ansiedade começa a ficar muito grande quando não se cumpre os rituais. A diferença entre o que é normal e o que não é está na intensidade e na frequência com que os fatos acontecem.

O TOC está sempre caracterizado por atos estranhos e exagerados?
A diferença entre o que é normal e o que não é está na intensidade e na frequência dos fatos e não na natureza deles. O TOC pode ser um pensamento obsessivo seguido de uma ação compulsiva que reduz esse pensamento, como limpar muito a casa por medo de contaminação. Mas ele também pode ficar apenas no plano do pensamento. Aí a pessoa tem o pensamento obsessivo e outro tipo de pensamento que confirma a obsessão. Por exemplo alguém que acha que fez algo ruim para outra pessoa e, por isso, precisa contar de zero a 100 três vezes. E aí tudo se passa em um plano encoberto, sem ação.

E a ação compulsiva tem uma relação direta com o pensamento obsessivo?
Nem sempre. O TOC é um transtorno de ansiedade e a função da compulsão é basicamente diminuir essa ansiedade produzida pelo pensamento. A pessoa se sente ansiosa e os pensamentos desagradáveis surgem por isso, aí os rituais e outros pensamentos aparecem para desviar a atenção da ansiedade. A pessoa pode manter rituais que não remetem em nada ao pensamento obsessivo.

Todo TOC começa como uma mania?
Às vezes sim. Geralmente começa com uma ansiedade grande e uma necessidade de encontrar formas de se esquivar desse sentimento. Os rituais e os pensamentos obsessivos distraem de uma situação de ansiedade. E esses rituais ficam tão intensos e demorados que atrapalham a vida da pessoa, uma vez que ela leva muito tempo para fazer qualquer coisa. Já atendi um paciente que levava até quatro horas para sair de casa. As pessoas precisam saber que quando a mania é muito exagerada, muito forte, frequente e estranha, a ponto de atrapalhar a vida e a execução de tarefas, vale a pena procurar um profissional.
Como se trata o TOC
Com medicamento e psicoterapia. Muitas pesquisas nessa área mostram que existe uma base neurológica para o surgimento do problema, além da questão ambiental e psicológica.

É importante cuidar para que as manias não se transformem em TOC?
Sim. Para prevenir a pessoa precisa se expor a situações que causem ansiedade, evitar o perfeccionismo, a rotina repetitiva e os rituais, procurar ajuda quando perceber que em momentos de ansiedade precisa de uma ação compulsiva e tentar não seder à compulsão para não reforçar o pensamento obsessivo.

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