To bet or not to bet
E agora essa paixotária, a paixão por jogos de azar, é atiçada pela facilidade do jogo instantâneo no celular
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de maio de 2025
E agora essa paixotária, a paixão por jogos de azar, é atiçada pela facilidade do jogo instantâneo no celular
Domingos Pellegrini 
A mãe mandou o menino buscar pão no bar da esquina, marcando na caderneta, e, quando ele ia entrando lá, uma mulher saiu empurrando um homem pra fora. O menino ficou tão admirado que o dono do bar explicou, o freguês estava apostando o dinheirinho que faltava em casa...
Setenta anos depois, bares não mais vendem pão nem há mais caderneta de fiado, e talvez esteja acabando o jogo-do-bicho em que aquele homem apostava , até porque o tec-jogo bet está predominando entre muitos jogos - que continuam, apesar de, conforme a Constituição, ser contravenção penal “estabelecer ou explorar jogos de azar”.
Essa tolerância oficial o menino veria desde sempre nas loterias estaduais e federais e nos tantos jogos “da sorte”, como também veria até parentes próximos viciados em cassinos de bingo eletrônico excepcionalmente fechados. Entretanto agora, com as bets, a paixão por jogos parece ter aumentado como só.
Pela lógica há apenas uma chance segura de ganhar de uma banca de jogo, que é ganhar na primeira jogada e não jogar mais. Mas a paixão não existiria se obedecesse à lógica, e o cidadão que o menino se tornou espanta-se com as dezenas de milhões de pessoas jogando nas bets o dinheiro de suas bolsas-família, “o dinheirinho faltando em casa”.
Jung escreveu que o ser humano “é obcecado por comida, sexo, segurança e poder”, e jogos ou diversão, dá para acrescentar sem erro, basta ver como os esportes mobilizam populações. E agora essa paixotária, a paixão por jogos de azar, é atiçada pela facilidade do jogo instantâneo no celular.
Com tanta publicidade como nunca se viu nos mais caros horários da tevê, as bets trocam a palavra “sorte” por “diversão”, significando que o apostador estará ganhando algo precioso mesmo quando perca no jogo como quase sempre. E, como a ocasional vitória em jogo de azar excita os viciados, através de descargas de endorfina, a bet funciona como droga a ser continuamente procurada.
Para os viciados esse mecanismo mental funciona tanto que as bets, ganhando tanto, além de fazer tanta propaganda, adotam grandes clubes de futebol, deixando antever que, a continuar assim, um dia até formarão bet-blocos na Câmara e no Senado. E decerto, como perder bastante é o que ensina a jogar “com responsabilidade” conforme a propaganda, quem sabe criem “programa assistencial educativo”, a Bet-Bolsa, para custeio de digamos semana de apostamento intenso dos mais viciados, com pagamentos posteriores consignados através de descontos na própria bolsa-família...
Então provavelmente parte da população se revoltará, indo pras ruas a clamar por proibição das bets, com o lema Bet-Não, enquanto outros clamarão por Bet-Sim, querendo destributação das bets barateando para os bet-vulneráveis. Com a nação quase em guerra civil, será então convocado plebiscito para decidir isso através de bet-artigo na Constituição.
Aí muitos lembrarão do monólogo ser-não-ser do príncipe Hamlet de Shakespeare, em Inglês “to be or not to be”, então to bet or not to bet.
Enfim, quem sabe o que aquele menino ainda verá neste bet-tempo...
Domingos Pellegrini, escritor
***
Os artigos, cartas e comentários publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina, que os reproduz em exercício da sua atividade jornalística e diante da liberdade de expressão e comunicação que lhes são inerentes.
COMO PARTICIPAR| Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. As cartas devem ter no máximo 700 caracteres e vir acompanhadas de nome completo, RG, endereço, cidade, telefone e profissão ou ocupação.| As opiniões poderão ser resumidas pelo jornal. | ENVIE PARA [email protected]


