O câncer de próstata - órgão do sistema reprodutivo - é a segunda causa de morte por câncer entre homens no Brasil e atingiu quase 48 mil pessoas em 2006. Apesar da gravidade, é uma doença negligenciada por boa parte da população masculina em razão do ''toque retal'' - exame preventivo realizado pelo reto.

O médico e diretor de gestão da Secretaria Estadual de Saúde, Gilberto Martin, descobriu a doença no início do ano e passou por cirurgia a tempo. Nesta entrevista à FOLHA, o médico faz um alerta aos homens: o preconceito pode levar à morte.


Como foi a descoberta e o tratamento da doença?

Tenho problema de cálculo renal e, durante o acompanhamento, detectei que tinha a próstata um pouco aumentada. A biópsia deu presença de células cancerígenas, com índice de malignidade intermediário. Nesse caso, o risco era se espalhar rapidamente para outros órgãos. A indicação do médico foi a cirurgia para retirada da próstata e órgãos anexos, com alto risco de contaminação. Após a cirurgia, ficou constatado que, graças a Deus, as células cancerígenas estavam restritas à próstata.


O exame de toque é realmente necessário?

Ele é necessário para a detecção precoce do câncer. Pelo tato, o médico pode perceber com precisão se a próstata aumentou de tamanho, se tem alterações ou nódulos - que são indicativos de câncer. Em relação ao constrangimento, acho que é um exame normal e, se existe alguma coisa, está apenas na cabeça dos homens. O preconceito criado a partir de bricadeirinhas é ruim, porque hoje tem cara que prefere morrer de câncer do que se submeter ao toque retal.


Isso é fato?

Com certeza. Se a pessoa estiver desenvolvendo um câncer de próstata e, por preconceito, não foi fazer seu preventivo, ela vai morrer.


Como a família e amigos o ajudaram?

O grau de solidariedade que eu tive foi muito tocante e uma coisa que achei interessante, e que justifica essa conversa, são os diversos amigos que, a partir do meu problema, saíram atrás de fazer seu preventivo. A realização de exames, a partir dos 40 anos, é importantíssima porque o câncer de próstata não dá sintoma nenhum, na maioria das vezes. Outra coisa: se o pai ou irmão tiveram a doença, a chance de contrair chega a ser dez vezes maior.


Seu tratamento foi pela rede pública - da qual o senhor é coordenador?

Não, tenho convênio médico e fiz por meio dele.


Como é o tratamento no serviço público?

Existe a oferta do serviço, o paciente deve conversar com o clínico geral do posto de saúde ou do Programa Saúde da Família (PSF). Dependendo do município, o clínico faz o exame de toque, se tiver treinamento. Nos casos em que o clínico não está acostumado, o posto solicita uma consulta ao consórcio de saúde para o urologista investigar.


Mas aí o paciente cai naquela fila em que as coisas são bem demoradas, não é? E uma curiosidade: por que o senhor não procurou a rede pública?

Realmente (o atendimento) não é o mesmo na rede pública e particular. Mas vou falar uma coisa que não é motivo de orgulho para mim. Em qualquer circunstância, pelo fato de eu ser médico, não sou parâmetro nesse aspecto e acabaria tendo atendimento diferente. Seria uma falácia dizer que o fluxo é igual. Por outro lado, apesar da limitação da fila, que existe, é importante, no caso da próstata, antecipar-se ao problema. Se o paciente entrar no programa de forma preventiva, vai conseguir retornos periódicos e, se tiver a doença, já vai estar dentro de uma clínica de urologia do SUS. Se esperar a doença, pode perder um tempo precioso para o atendimento.

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