Pouco mais de 15 dias fora do País foram suficientes para se perceber como o sistema político brasileiro e entidades de intermediação social, inclusive a imprensa, estão comprometidas com a personificação do poder, fenômeno que assume configuração extraordinária nesse momento eleitoral. Infelizmente, o plano das idéias, entre nós, é uma tênue sombra do monumental painel da fulanização política. Nos mais diferentes espaços da Europa, por exemplo, as questões giram neste momento em torno do papel do Estado, particularmente no que diz respeito à rede de proteção social.
Trata-se de uma longa peregrinação feita por instituições banhadas pelo sangue das guerras, solidificadas pelo sofrimento e sacrifício de milhões de cidadãos e profundamente respeitadas por uma sociedade vacinada contra a demagogia e falsas convicções. Se na França, o novo primeiro-ministro, Jean-Pierre Raffarin, numa densa declaração de política geral, anuncia grandes linhas de modernização administrativa, elegendo a descentralização e as políticas sociais, inclusive nos campos da segurança e da justiça, como prioridade do governo, no leste, seja na Hungria, seja na República Tcheca, que se preparam para ingressar, em 2004, na União Européia, a social democracia vai assumindo densidade, aproximando os contrários, nunca pela polarização entre perfis mas pela diferença, mesmo sutil, entre programas. O ''leit-motiv'' das discussões é o equilíbrio entre o Estado e o mercado.
Diante desse vigoroso ideário, que se agiganta quando inserido nos majestosos e deslumbrantes templos e palácios, a demonstrar que ali flui ainda viva a seiva da história, parecemos um assolado território de barbárie, algo como o velho faroeste americano, com aventureiros, cavaleiros andantes, justiceiros e Johns Waynes atirando em índios, ladrões e predadores. Não escapam desse mundo incivilizado os nossos próprios candidatos à presidente da República, que se acariciam mutuamente com tititis e trololós, golpes e bofetadas vocais, na esteira da personalização que invadiu todas as esferas públicas brasileiras.
É triste, muito triste, constatar que o maior pleito eleitoral de nossa história contemporânea, começa a se desenrolar sob o signo da pequenez, da tática de emboscadas e de um exacerbado individualismo, que fecha as comportas das idéias. O que estamos presenciando, pelo menos nesse momento, é uma intrigalhada entre candidatos. Afinal de contas, pergunta-se, quais são as grandes idéias para o desenvolvimento do País, que sejam compreensíveis e internalizadas por eleitores avessos tanto a um recorrente e incompreensível economês? Precisam entender que chegou a hora de demonstrar como transformar convicções em ações.
O mito do candidato-deus e do candidato-diabo é inaceitável. Não passa de balela querer construir um falso ''Muro de Berlim'' entre candidaturas, devendo ser repudiada qualquer tentativa de se apresentar ao eleitor o jogo ilusionista do bem e do mal. É perigoso querer enganar o eleitor com falsas embalagens. Quem perde a identidade, é falso consigo mesmo. É inadmissível transformar pesquisa eleitoral em instrumento de barganha, pressão e especulação financeira. A fulanização, o tiroteio verbal, o marketing e as pesquisas estão transformando a campanha em um jogo de paixões. Se as paixões, como dizia Burke, forjam as próprias algemas de homens de mentes destemperadas, perigam os candidatos enfumaçar tanto o ambiente, que os eleitores só conseguirão decidir quando o céu estrelado permitir distinguir diferença entre as idéias.
Os atuais índices de intenção de voto de cada um, menos que aceitação de ideário, atestam a significação dos perfis. Quase nada se captou do que os candidatos disseram até o momento. O eleitorado opta em função de um discurso estético, produto de visibilidade e de uma vaga associação feita em torno de valores como simpatia, confiança, capacidade, honestidade e posicionamento no status quo.
Os significados são evidentes: Lula simboliza a contrariedade dos eleitores contra o governo, mais que a soma de suas virtudes; Serra é a extensão do situacionismo, e começa a perder identidade por querer ficar na coluna do meio, o que poderia explicar, em parte, o visível distanciamento do presidente Fernando Henrique. Aliás, não é de todo inaceitável a tese de que uma vitória de Lula conviria ao presidente, pois, como muitos crêem, a democracia brasileira precisa experimentar o PT no Planalto, além da perspectiva de uma retomada triunfal do poder em 2006. Ciro é a opção de quem não confia nem no governo nem em Lula e, arremetendo forte junto às classes médias, pode ser a novidade; e Garotinho nada mais é que a adição de grupamentos evangélicos e populistas, inseguros na caminhada e esperando o momento de resvalar para os lados. É de se esperar deles espírito de grandeza, capaz de eleger o plano das idéias como força maior da campanha.
GUADÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político
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