Somos, realmente, vagabundos e insensíveis? A interrogação será, insistentemente, uma agulhada merecida em nossa consciência e em nossos brios. Vamos partir da premissa filosófica de que todos somos passageiros do mesmo barco, em nossa viagem/estada terrestre, onde a felicidade e a desgraça são problemas de todos, para todos e de cada um, assim como um abscesso no dedo do pé pode comprometer nosso sistema nervoso central por inteiro.
E vamos aceitar, querendo ou não, que dar de ombros ao próximo significa comprometer todo o sistema que rege nossa caminhada na busca de uma vida honesta, limpa e útil. E vamos compreender que a Lei de Causa e Efeito (ou do Retorno) não é mera especulação acadêmica e/ou teológica. E, por fim, vamos aceitar que todos somos criaturas advindas do mesmo Criador.
Posto isto, vamos saber se somos todos seres humanos, por excelência ou não; sem fanatismo religioso e com os parafusos da razão na melhor ordem. E o objetivo deste artigo é jogar você contra a parede, na base do matar ou morrer; justamente porque estamos virando o rosto para as questões essenciais da dignidade e da decência humanas.
Somos vagabundos porque somos omissos. Isso é doloroso e lancinante. E uma destas omissões imperdoáveis é contra a violência, em suas mais variadas e truculentas formas de apresentação. Com toda a certeza, a violência é o câncer moral do século XX; com virulência e malignidade, em crescendo tal e tanto, que nos está arrastando para o vale das lágrimas dolorosas e colocando todos na mira certeira da fatalidade catastrófica.
Traduzindo em miúdos, você tem uma enorme chance de ser uma vítima da violência, que você, ou melhor colocado, todos nós deixamos florescer no jardim de nossa irresponsabilidade. As metástases deste gigantesco tumor maligno estão aí, desde os porões das favelas até os edifícios mais altos e suntuosos, nas pequenas e grandes cidades, nas melhores e piores famílias, nas classes inferiores e superiores, nos governos e na sociedade, no público e no privado, nas igrejas e nos terreiros, nos letrados e nos incultos, com motivos e, na maioria das vezes, sem motivos.
Vamos nos situar, de corpo e alma, com a seguinte situação: nos arredores de uma grande cidade moram, numa casinha pobre e sem muita estrutura física, a mãe/avó, duas filhas, um filho menor e um netinho de 3 anos. Lá pelas 2 horas de madrugada uma gangue de cinco humanóides desajustados está vindo; no silêncio mortal de subúrbio, embalados pela fantasia das narcodrogas, e à semelhança dos índios americanos atacando uma diligência, eles colocam seu poder de fogo para aterrorizar a pobre família, num vandalismo inacreditável para a condição humana.
Com porretes, pedras e cabos de aço eles quebram a única moradia desta gente humilde, honrada, trabalhadora e indefesa. Com gritos e risadas selvo-bárbara-sarcásticas, promovem uma bandalheira com brutalidade e impiedade de carrascos. As vítimas gritam por socorro; a noite é negra, os vizinhos não acodem (por sentirem tanto medo quanto as vítimas) e a bandidagem já destruiu, por antecipação, o único telefone do bairro e não há polícia/posto policial por perto. E, além da pilhagem/destruição, os delinquentes ainda querem estuprar as moças e matá-las. Coloquemo-nos na pele desta gente sofredora e poderemos vislumbrar o que é o verdadeiro pranto e ranger de dentes em vida.
A tragédia descrita acima não é ficção. A crueldade está toda aqui: isto não é ficção. Aconteceu e está acontecendo em todas as regiões deste Brasil continental e impune-símbolo. Todos os dias, sem faltar nenhum, você fica sabendo de mais e mais violência contra o ser humano (ou seja, contra você mesmo) e isto não entra no cotidiano de suas aflições, na prioridade de sua vida, não é mesmo? É o velho lugar-comum de que pimenta no olho do vizinho é entretenimento para nós. Mas, por trás de toda esta fragilidade de nossos brios, está se consolidando a maior tragédia de que o mundo terá tido conhecimento: a violência como instituição universalmente aceita e para sempre irreversível, onde os nazistas serão apenas uma lembrança de palhaços bem comportados e divertidos.
Assaltos, estupros, assassinatos, bombas, balas perdidas matando, corrupção dos políticos e pelos políticos, sequestros, conchavos político-empresariais, injustiças sociais, mentiras, Justiça lenta e parcial, pobreza analfabeta, negociatas, mutretas, falcatruas, salários altíssimos para gente ociosa e despreparada, enganação das Igrejas junto a famílias humildes e desesperadas, maracutaias nos gabinetes, partidos gananciosos e inconsequentes, drogas, TV imoral, greves políticas nas costas dos trabalhadores, sumiço de dinheiro público e tantas outras deformidades de nosso organismo social: eis apenas alguns dos tentáculos do imenso polvo-violência, que já nos pega há muito tempo e a gente vai levando. Um dia (e este dia chegará, mais cedo ou mais tarde) receberemos o golpe de misericórdia; ou nossa mulher, ou nossos filhos, ou nossos amigos ou qualquer pobre diabo lá de Manicoré.
E a solução? É pegarmos as armas da decência, da educação integral, da dignidade, do bom senso, dos valores cristãos, da responsabilidade, do compromisso com o próximo, da justica social, da fraternidade, da solidariedade e da razão e enfrentarmos o inimigo onde quer que ele esteja, varrendo-o de aldeia em aldeia, até exterminá-lo da face da terra. Vamos seguir o exemplo de Cristo, que não veio trazer a paz e sim a verdadeira guerra: a guerra sem tréguas contra tudo aquilo que descaracteriza e aniquila a dignidade do homem. Ele não expulsou os vendilhões do templo por mero capricho.
- RENZO SANSONI é médico em Uberlândia (MG)

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