Em sua réplica a meu artigo “Tirem Bolsonaro do templo”, publicado aqui em 30 de janeiro, Paulo Briguet, em sua coluna deste final de semana, desvia-se do tema central para brandir duas de suas obsessões recorrentes: o socialismo e o PT.

O tema central do artigo é a violação do governo de Jair Bolsonaro ao principio constitucional do laicismo, ao adotar preceitos religiosos como política de estado, e o cinismo dos bolsonaristas em condenar o suposto “aparelhamento político” da Igreja Católica e, ao mesmo tempo, utilizar denominações evangélicas para colher assinaturas que viabilizem o partido idealizado pelo presidente da República.

“Tirem o PT do altar” é o slogan, de cuja autoria Briguet se vangloria, da campanha bolsonarista contra a Igreja Católica.

O colunista omitiu na réplica a primeira parte do tema. É compreensível, já que, da mesma forma como faziam seus companheiros petistas quando estavam no poder – sim, Briguet foi filiado ao partido, como lembra com frequência em seus textos -, ele defende com entusiasmo o ideário e as ações do presidente e seu governo. Desviar de uma questão espinhosa para outra em que se sinta confortável é outra prática petista que Briguet adotou em sua intervenção.

“A Igreja Católica veta o partidarismo político; outras denominações são livres para decidir o que fazer”, afirma Briguet. Ora, se a Igreja Católica veta o partidarismo político, como Briguet e seu grupo podem acusá-la de “aparelhamento político”? A falácia é retumbante. E, se “jamais aceitaria que um padre fizesse campanha de filiação por qualquer partido — de direita, de centro, de esquerda ou tucano”, por que Briguet admite que isso ocorra em templos evangélicos, mesmo que sejam “livres para decidir o que fazer?”

Dois pesos e duas medidas! Também, mas essa ambiguidade comprova que o “aparelhamento político” que incomoda os bolsonaristas é o que não se curva aos desígnios do seu líder. Líder que cultuam com mais ardor que os petistas a Lula, pois veem Bolsonaro como um enviado divino para “resgatar o Brasil do socialismo”, doutrina que jamais se materializou entre nós como princípio ou prática de governo.

E onde está o “socialismo” que Briguet, já no título de sua réplica (“Tirem o socialismo do altar”), acusa a Igreja Católica de cultuar? Segundo ele, “alguns supostos católicos” defendem “partidos e doutrinas socialistas”, em afronta a duas encíclicas de Leão XIII, citadas por ele, que condenam o socialismo.

A injustiça de Briguet é clamorosa: por causa de “alguns supostos católicos”, ele execra a Igreja Católica como instituição! Instituição, aliás, da qual se diz membro. E, mais uma vez, comete erro de lógica, pois se os documentos basilares da Igreja reprovam o socialismo, como pode exigir “Tirem o socialismo do altar”? E, mais uma vez, replica o estilo petista de acusar falsamente o adversário.

O socialismo e o PT usados por Briguet para fugir do tema central merecem algumas considerações. O socialismo, deputado pelo tempo, inspira vários partidos governantes sem constituir ameaça ao Estado de Direito, como na França, e a maior aberração que gerou, o comunismo, teve a morte consumada em 1989 com a queda do Muro de Berlim. O que resta dessa monstruosidade são a agonizante Venezuela, os zumbis Coréia do Norte e Cuba e a híbrida China, que concilia o capitalismo com a hegemonia do Partido Comunista. A China, no entanto, não exporta ideologia e sim produtos manufaturados. E o PT é o partido que protagonizou o governo mais deletério de nossa história recente, e por isso foi escorraçado do poder. Seu retorno ao comando do país é uma hipótese remota, mas convenientemente brandida como iminente pelos bolsonaristas como estratégia para tirar o foco dos erros cometidos em profusão pelo governo.

Em visita à Lituânia, em 2018, o papa Francisco alertou para os governantes que tentam “impor um modo de pensar, uma ideologia, um discurso dominante, usar a violência ou repressão para oprimir”. É ou não é a definição perfeita de Bolsonaro, que faz a apologia do regime de força e da tortura, persegue os adversários, coíbe a imprensa livre, faz da mentira método de ação e instiga as hordas de apoiadores a se insurgirem contra as instituições democráticas, as conquistas sociais, os direitos civis, o meio ambiente - causa personificada por São Francisco de Assis?

Briguet deixou o PT. Mas o espírito petista, como atesta seu texto, não o abandonou. Ao iniciar a sua réplica, ele se refere a mim como “meu amigo”. A recíproca é verdadeira e me credencia a apelar: Briguet, tire o PT da sua alma!

José Antonio Pedriali (jornalista) - Londrina .

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