Tirando o peso da consciência - Dad Squarisi
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de novembro de 1998
Dad Squarisi 
Você vai dar um jantar. Planeja servir uísque importado, vinho francês, entradas, prato principal, sobremesas. O cafezinho, claro, não poderia faltar. De quebra, uma bala de chocolate. Definido o cardápio, você vai às compras. Antes, passa pelo banco. Descobre que está no vermelho. E daí? Cancelar os convites? Não dá mais tempo. O jeito é fazer uma economiazinha. O que cortar?
A bebida, claro, não será a eleita. As entradas também não. Sem o amendoim, a castanha ou o queijinho, o convidado corre o risco de se embebedar. A comida e a sobremesa são o ponto alto da festa. E o cafezinho? É complemento indispensável. Resultado: sobra pra balinha. Não alivia o bolso. Mas tira o peso da consciência.
O exemplo vale para a facada dada no Orçamento. São R$ 8,7 bilhões que deixarão de ser aplicados em leitos hospitares, em programas de combate à dengue e à mortalidade infantil, na merenda escolar, no livro didático, na construção e manutenção de estradas, na reforma agrária.
Não é hora de discutir a oportunidade do corte. Muito já se falou e se falará sobre o assunto. É hora, isso sim, de comentar o corte da balinha. São os R$ 737 milhões abocanhados do quinhão da Ciência e Tecnologia. É pouco. Muito pouco. Mas fazem estragos.
Vale um exemplo. Com esse dinheiro, o CNPq paga bolsas de estudos para cientistas, pesquisadores, professores e alunos. Sem os recursos, nada de pesquisas novas. As que estão em andamento vão pra geladeira. Acompanham-nas o patrimônio de experiências e conhecimentos construídos ao longo de décadas.
Se o jantar for cancelado, pode-se aproveitar a maior parte dos ingredientes. O freezer está aí pra isso. Com a pesquisa, a coisa é diferente. O trabalho suspenso ou interrompido fica pra trás. Envelhece. O País perde duplamente. Joga no lixo investimentos feitos e deixa de colher frutos em cujo cultivo investiu. Em outras palavras: paga, mas não leva.
É importante lembrar um ponto. A baixa qualidade da escola brasileira se deve, em boa parte, à má qualificação do magistério. Com a massificação do ensino lá pelos anos 70, abriram-se as portas dos colégios às massas recém-urbanizadas. Vivia-se o milagre econômico. Foi fácil construir salas de aula, montar laboratórios, organizar bibliotecas.
Mas cadê professor? Não estava à venda em supermercado. O jeito foi improvisá-lo. Pessoas sem formação pedagógica ou acadêmica foram chamados a tapar buracos. Criaram-se os cursos de curta duração e tantas outras formas rápidas de formar quadros pra lá de precários.
Aos poucos, o governo foi fazendo investimentos na qualificação da mão-de-obra acadêmica e na formação de pesquisadores. Foram longos anos de árduo preparo. Havia a certeza de que a educação, a ciência e a tecnologia constituem alavancas de interesse estratégico para o futuro do País e para superar a crise em que se encontra mergulhado.
Com o golpe no petit fours, um fosso se abrirá no processo. Vamos adiar o jantar. E embarcar numa viagem em direção ao atraso.


