Timor: uma tragédia silenciada
J. Roberto Whitaker Penteado
Soube, pela primeira vez, a respeito do genocídio em Timor Leste através dos escritos de Noam Chomsky, um dos mais brilhantes e respeitados intelectuais americanos, porém que é, hoje em dia, literalmente censurado em bastiões da cultura, como a Universidade de Harvard – exatamente por preocupar-se com assuntos como Timor Leste – enquanto a maioria da humanidade prefere vê-los sob o tapete das alienações e conveniências. Foi há uns oito ou nove anos. Logo depois de as tropas indonésias de ocupação perpetrarem uma grande chacina, na ilha, fuzilando e massacrando cerca de 250 pessoas que acompanhavam o enterro de Sebastião Gomes, um líder nacionalista assassinado pelas mesmas tropas.
Esse incidente ficou conhecido como ‘‘O Massacre de Santa Cruz’’ (nome do cemitério). Talvez devesse escrever ‘‘ficou notório’’, porque a imprensa brasileira – alinhada com as agências noticiosas internacionais – deu muito pouco destaque ao fato. E quase ninguém sabe que isso ocorreu quase exatamente 16 anos depois de o povo de Timor Leste ter proclamado sua independência de quatro séculos de dominação portuguesa, em 1975.
O pequeno país, de 700 mil habitantes, não só não teve a independência reconhecida por qualquer outra nação da terra, como foi imediatamente invadido pelo Exército da Indonésia (população: 200 milhões), sob o silêncio aprobatório das Nações Unidas. Durante a invasão, 60 mil leste-timorenses foram mortos e a matança continuou, chegando a mais de 200 mil – quase um terço de toda a população – quando, em 1996, finalmente, a Academia Sueca fez o mundo perceber que havia alguma coisa podre nas paradisíacas ilhas do Pacífico, ao outorgar o prêmio Nobel da Paz a dois timorenses: o bispo Carlos Felipe Ximenes Belo e o ex-ministro de Timor, professor José Ramos-Horta.
No seu livro, escrito em parceria com Matthew Jardine (‘‘East Timor: Genocide in Paradise’’), Chomsky registra que, ‘‘nos sangrentos anais de crimes do século 20, o assalto da Indonésia ao território de Timor, bate recordes de horror – não só como mais alta mortandade em relação à população desde o Holocausto – como pelo fato de que poderia ter sido facilmente evitado, ou interrompido, se as grandes potências assim o tivessem desejado.’’
Recebi pela Internet – essa grande rede de liberdade, com que hoje se consegue driblar, pelo menos em parte, os interesses que controlam a grande mídia internacional – uma ‘‘carta a Bill Clinton’’, de um cidadão português, que me apressei a mandar aos amigos e quero compartilhar com os leitores: ‘‘Senhor Bill Clinton, as forças indonésias continuam covardemente assassinando indefesos timorenses – será que o mundo é inteiramente covarde? A ONU não reage a este fato – e a América? Senhor Bill Clinton, será que Timor Loro Sae e o seu povo não merecem o seu respeito? Ou não será a América, grande e respeitada, a autoproclamada garantidora da paz e da democracia mundial? Ou será essa uma benesse só para alguns? Nesse caso, que democracia é essa? Será que o espaço geográfico de Timor Loro Sae é pequeno demais para os seus aviões? Será que as suas águas, eventualmente, sejam pouco profundas para os seus poderosos navios de guerra? E a sua Infantaria poderá ‘‘escorregar’’ nas montanhas de Timor Loro Sae? E sua cavalaria motorizada não terá força em HP para operar em Timor Loro Sae? A Indonésia parece uma república de bananas, onde ninguém respeita ninguém. claro que com a minha revolta por este macabro caso, poderei estar completamente enganado, mas senhor Bill Clinton, a Indonésia recrutou bandidos e rufiões para as ‘‘forças armadas’’, que operam em Timor Loro Sae. A dedução é fácil: nenhum verdadeiro militar é covarde, nem assassina seres humanos a sangue frio. Evidente que também posso estar enganado... Dentro da minha grande ingenuidade, um pensamento martela-me o espírito: será que, se ainda existisse a guerra fria entre a América e a Rússia, o povo timorense não estaria, neste momento, protegido por uma das partes? Nesse caso talvez devamos pensar que certos muros nunca deviam ter sido derrubados. E, a propósito: enquanto leu esta mensagem, muitos pobres, esfomeados e indefesos timorenses foram bárbara e covardemente assassinados... Senhor Bill Clinton, por favor, não faça como Pôncio Pilatos! Cumprimentos com grande admiração por V. Exª, Carlos Leite Ribeiro, Marinha Grande, Portugal, [email protected].’’
Acho esse texto ingênuo melhor do que qualquer análise de ‘‘especialistas’’ e deixo-o, caro leitor, a sós com suas reflexões. Como sempre, se quiser acessar o texto para passá-lo adiante, ele está em www.uol.com.br/propmark/-colunas.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é professor e dirigente universitário no Rio de Janeiro

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