Timor quase livre
Léo de Almeida Neves
Cumpriu-se mais uma etapa do glorioso destino do Timor Leste. O comparecimento às urnas de 95% dos eleitores inscritos revela a força do anseio desse heróico povo em livrar-se do jugo estrangeiro. O alistamento para o ‘‘referendo’’ era facultativo, exigindo coragem pessoal e cívica para enfrentar as milícias armadas dos ‘‘quislings’’, colaboracionistas dos invasores indonésios.
A vitória final da causa pela libertação do Timor Leste é um dos episódios mais dignificantes da história universal moderna. O povo timorense não se intimidou com a ocupação de seu território pelo exército da Indonésia desde 7 de dezembro de 1975. Erroneamente, não houve anistia prévia e o principal líder José Alexandre Xanana Gusmão, condenado a 20 anos de prisão, cumpre pena domiciliar em Jacarta, e somente foi autorizado a votar em um posto eleitoral da ONU. José Ramos Horta, ex-ministro das Relações Exteriores no efêmero governo independente do Timor de dez dias (28 de novembro a 7 de dezembro de 1975), um dos contemplados com o Prêmio Nobel da Paz, está no exílio e não pôde participar da campanha eleitoral.
O bispo de Dilli, capital do Timor Leste, D. Carlos Felipe Ximenes Belo, também agraciado com o Prêmio Nobel, ficou confinado à sua diocese. A Organização das Nações Unidas (ONU) não organizou um contingente dos ‘‘capacetes azuis’’ para garantir a fase pré-eleitoral.
Mesmo com todos esses fatores adversos, velhos, doentes, mulheres carregando seus filhos e praticamente todos os eleitores foram às mesas de votação. Os timorenses que vivem no exterior alistaram-se e todos votaram. Antes do pleito, cenas de violência com várias mortes se sucederam e foram mostradas pela televisão. Arriscando a própria vida, em uma campanha silenciosa, de conversas murmurantes, o bravo povo timorense deu uma lição incomparável de amor à liberdade e determinação para tornar realidade a sua pátria.
A esmagadora maioria de votos a favor da soberania do Timor Leste merece os aplausos e a reverência da toda humanidade. Há, porém, obstáculos a serem transpostos. As milícias pró-Indonésia continuam praticando atos de terror e fazendo vítimas. Entrementes, não se sabe a posição do governo que irá instalar-se em Jacarta, como fruto das recentes eleições realizadas na maior nação de religião muçulmana do universo.
Para evitar um oceano de sangue, a ONU terá que enviar, imediatamente, ao Timor Leste uma força (militar) de paz, de emergência, a fim de assegurar os resultados da consulta popular e garantir uma segura transição até que se organize um governo próprio.
É preciso reconhecer que, depois do povo timorense, quem mais se empenhou – com denodo, persistência e sabedoria para o alcance dessa meta – foram o povo e o governo de Portugal.
Em todos os encontros internacionais da ONU, da União Européia, da Comunidade das Nações de Língua Portuguesa, dos países Ibero-Americanos, nas reuniões com chefes de Estado, Portugal colocava prioritariamente na pauta de discussões a questão do Timor Leste.
Na inauguração, em Lisboa, da Monumental Exposição de Comemoração aos 500 anos das conquistas marítimas dos navegadores portugueses, a questão do Timor Leste pontificava nos discursos e nos painéis exibidos.
A diplomacia portuguesa foi incansável, talvez para redimir-se do fiasco de ter abandonado o Timor Leste à própria sorte, quem sabe premida pelas dificuldades internas, após a Revolução dos Cravos, de abril de 1974, que eliminou de vez o flagelo do salazarismo.
Na verdade, o Timor Leste constituiu-se na única colônia portuguesa não beneficiária do programa de descolonização, que emancipou Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Sem condições de reagir, Portugal assistiu passivamente a invasão pela Indonésia, com a conivência dos Estados Unidos, a pretexto de que o autoproclamado governo, liderado pela Frente Revolucionária de Timor Leste Independente (Fretilin), era de conotação marxista.
Quem perdeu a oportunidade de assumir posição de vanguarda na libertária luta do Timor Leste foi o Brasil que, a reboque, apenas timidamente incorporou-se ao processo. A atitude do nosso governo federal só se explica pela exagerada submissão à política internacional ditada por Washington.
Ainda é tempo do Brasil ocupar seu lugar, ajudando objetivamente o Timor Leste a consolidar sua independência política, seja com efetivos militares sob a bandeira da ONU, seja com assistência técnica, para organização do seu sistema administrativo e de um arcabouço financeiro, ou para assessoramento e ajuda nas áreas de saúde e educação.
Ademais de suas belezas naturais com lindas montanhas e praias maravilhosas, o Timor Leste tem uma plataforma submarina com potencial petrolífero, tanto assim que empresas indonésio-australianas estão atuando no setor. A Petrobrás, primeira colocada mundial na perfuração de petróleo em águas profundas, bem que poderia marcar sua presença no Timor Leste.
A Comunidade das Nações de Língua Portuguesa estará brevemente enriquecida com a participação de mais uma nação independente. Quem sabe, o exemplo do Timor Leste estimulará os habitantes de Goa (onde o lendário Vasco da Gama desembarcou em 1499), ocupada a ‘‘manu militari’’ pela Índia desde 1962, mas que mantém vivas suas tradições lusitanas, a também buscarem a libertação política da região.
- LÉO DE ALMEIDA NEVES é suplente de senador pelo Paraná, ex-deputado federal e exerceu diretoria do Banco do Brasil e a presidência do Banestado

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