Timor Leste próximo da liberdade - Léo de Almeida Neves
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de março de 1999
Léo de Almeida Neves 
A brava luta do povo do Timor Leste para conquistar sua independência aproxima-se da vitória. O encontro em Jacarta, no dia 6 deste mês, da secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright, com o líder guerrilheiro separatista José Alexandre Xanana Gusmão, trazido da sua prisão domiciliar até o prédio do Ministério de Assuntos Exteriores da Indonésia, sacramentou de vez a tese da libertação.
Percebendo que é insustentável manter a anexação do Timor, o governo indonésio, já em 4 de fevereiro, divulgara um plano de autonomia tutelada do país, incluindo eleições para escolha de um Parlamento, adoção de bandeira própria e um plebiscito para decidir se o povo quer a independência ou prefere manter-se vinculado à Indonésia. O General Wiranto, comandante das Forças Armadas Indonésias, que detém efetivos de 20 mil homens no território timorense, manifestou concordância com a proposta do presidente B.J. Habibie.
Fatos graves, porém, têm sido noticiados e atos de violência continuam praticados por soldados do exército indonésio contra a maioria da população, que deseja a emancipação política. Ademais, denuncia-se que as tropas indonésias estão fornecendo armas a milícias civis favoráveis à continuidade da ocupação. Os quislings (traidores noruegueses aliados dos alemães na 2ª Guerra Mundial) colaboracionistas, que têm situação privilegiada, outorgada pelo governo indonésio, como o atual governador Abílio Soares, não querem perder suas posições de mando.
Nada justifica provocar ainda mais sofrimento ao povo do Timor Leste, que teve um terço de sua população assassinada, por fome ou à bala, pelas tropas do General Suharto, ex-ditador da Indonésia que, com o beneplácito do governo norte-americano, invadiu o país em 7 de dezembro de 1975, dez dias após ter declarado a independência do colonialismo português e instalado governo provisório, sob a égide da Frente Timorense de Libertação Nacional (Fretilin), ainda no impulso da Revolução dos Cravos de abril/194, que pôs fim ao regime salazarista em Portugal.
Cabe relembrar que a ONU repudiou a invasão Indonésia e aprovou sete resoluções, sendo duas do Conselho de Segurança e cinco da Assembléia Geral, determinando a imediata retirada das forças indonésias de ocupação e reconhecendo que, juridicamente, Portugal ainda tem domínio legal sobre o território do Timor Leste, cabendo-lhe conceder a independência a sua antiga colônia.
Há justificáveis temores que a população do Timor Leste, atualmente de 800 mil habitantes, venha a ser massacrada pelas tropas indonésias e seus abalos, portadores de armas sofisticadas.
Está na hora do Itamaraty empreender ação ativa nesse problema, propondo que, simultaneamente ao retorno da jurisdição do território ao governo de Portugal, seja enviado um contingente de paz dos capacetes azuis da ONU, integrado por forças armadas de Portugal, Brasil, Austrália e outros, para garantir a ordem pública, depois da retirada das tropas indonésias. Os EUA manifestaram apoio ao envio de tropas da ONU, pela voz da Secretária de Estado.
Entrementes, a Indonésia deve conceder anistia ampla, total e irrestrita ao líder Xanana Gusmão, aos demais presos políticos timorenses e aos exilados, afim de que possam retornar imediatamente à sua terra natal, principalmente José Ramos Horta, prêmio Nobel da Paz de 1996 (que ganhou o laurel juntamente com o bispo Dom Carlos Ximenes Belo), ex-ministro das Relações Exteriores do curto governo independente e porta voz dos nacionalistas no exterior.
Portugal concederia a independência ao Timor Leste, formando-se governo de união nacional, sob o comando de Xanana Gusmão, que convocaria eleição para a Assembléia Nacional Constituinte. As forças de paz da ONU permaneceriam no país, até a consolidação democrática.
O Brasil ficará engrandecido se colaborar com o governo português, com a ONU e com a própria Indonésia para que o Timor Leste se transforme o mais rápido possível em nação soberana, evitando maiores traumas e sofrimentos.
Sem chegar ao exagero do escritor Fernando Pessoa ao declarar minha Pátria é a língua portuguesa, o Brasil ganharia pontos na sua imagem internacional se saísse da sua timidez no trato dessa questão e marcasse presença destacada na solução do problema.
Lembre-se que o ex-presidente Itamar Franco, quando ocupou a Embaixada brasileira em Lisboa, abraçou de corpo e alma a causa da independência do Timor Leste, nação contemporânea do Brasil descoberta pelos navegadores portugueses em 1520.
Em contraste com a aceleração de acontecimentos favoráveis à libertação do Timor Leste, a poderosa Rede Globo de Televisão está devendo ao povo brasileiro uma reportagem completa sobre os últimos acontecimentos nas capitais Jacarta e Dilli, para redimir-se da sua injustificável omissão nas diversas reportagens apresentadas pelo programa domingueiro Fantástico sobre os países de língua portuguesa, que simplesmente ignorou a existência do heróico povo timorense, que habita a ilha situada entre os oceanos Pacífico e Índico, produtora de café e com grande potencial de petróleo.


