Timor Leste: o nascimento de uma nação
Um ano e meio depois de ter ganho sua liberdade na luta contra a Indonésia, o Timor Leste enfrenta um período crucial de atividade política e de compromisso cívico, bem como a concretização de um projeto maciço para reconstruir sua arruinada economia e sua destroçada infra-estrutura. Anexada à força por Jacarta, em 1976, a ilha ficou submersa na violência desatada tanto antes quanto depois de a população votar maciçamente em favor da independência no referendo de agosto de 1999 pelos militares indonésios e pelos grupos paramilitares contrários à autodeterminação da região.
As eleições para designar uma assembléia constituinte que deverá redigir uma Constituição para a nova nação sofreram uma tentativa de serem fixadas para agosto próximo, embora, talvez sejam propostas para mais adiante. Mas, antes disso, muito deve ser feito. Um registro civil como base de dados para preparar a inscrição no registro eleitoral já está em marcha. Os partidos políticos, os políticos e os intelectuais timorenses começaram a debater profundamente sobre a estrutura governamental isto é o mínimo necessário que deverá ser criado.
Nos próximos meses, será preciso tomar uma decisão a respeito de um sistema eleitoral e um regulamento para os partidos políticos a ser adotado pelo Conselho Nacional, corpo legislativo provisório do Timor Leste. Serão organizados programas de educação cívica ao longo de todo o território para informar as pessoas sobre seu futuro político e para que tenham consciência de que a liberdade, a democracia e a paz são condições essenciais para o progresso e bem-estar de cada um dos cidadãos.
Entretanto, o processo político é apenas um dos fundamentos de nossa transição para a independência; o outro é a timorização. É importante que os timorenses do Leste falem com uma só voz, de modo que a Administração de Transição das Nações Unidas em Timor (Untaet) comece este processo de maneira séria. A simples nomeação de ministros não reúne, para isso, as condições necessárias. A timorização de que falamos significa construir a capacidade dos timorenses para governar e decidir sobre seus próprios assuntos, mas, até agora, não vemos tal coisa.
Nossa prioridade para os primeiros meses deste ano é recrutar diretores-gerais ou cabeças de ministérios e seu pessoal. Se isso não ocorrer, teremos de concluir que a extensão do mandato da Untaet tem apenas o propósito de beneficiar a equipe internacional que é tão generosamente retribuída no Timor Leste. A democracia não pode ser construída da noite para o dia, mas sim através de uma experiência prolongada. Portanto, não estamos com pressa para alcançar a independência. Queremos estar seguros de que a transição seja suave, gradual e efetiva.
Uma dinâmica que atualmente dificulta esta preparação é a tendência do pessoal internacional de fomentar o já importante impulso timorense para a auto-afirmação. Esses funcionários internacionais esquecem quanto eles próprios estão pouco inteirados do processo da luta de nosso povo e, portanto, estimulam a expressão de várias formas de desacordo, como se elas fossem o único caminho para afirmar a democracia.
Esta natural necessidade de auto-afirmação, de partidos e de indivíduos, conduz a um forte sentimento contra o Conselho Nacional para a Resistência Timorense (CNRT) como se fosse o principal inimigo dos partidos políticos e da sociedade civil. Isso se deve, em parte, à equivocada percepção de muitas organizações internacionais sobre o CNRT, que supõem que este seja um partido político.
Aqueles que atacam o CNRT esquecem que se está preparando o terreno para que os partidos possam competir pela obtenção do poder político num futuro próximo. O CNRT se preocupa com a estabilidade política durante o período posterior à independência e a criação do necessário clima de paz e harmonia entre a população, ao qual nosso povo tem pleno direito. O que os timorenses necessitam são novos dirigentes que sejam sábios, sérios e tenham uma ampla visão do processo. O CNRT tem a esperança de que a maturidade nascida de 25 anos de luta leve os partidos políticos a atuarem com maior realismo e objetividade em suas análises do processo independentista.
O CNRT está convencido de que as eleições serão o motor para uma mudança das mentalidades ainda distorcidas que existem tanto entre os estrangeiros que trabalham na ilha quanto entre os timorenses, que buscam a auto-afirmação em nossa sociedade. Solicitamos à comunidade internacional que ajude o povo do Timor Leste dando crédito, ao mesmo tempo, ao sistema político que estamos procurando construir e à determinação do CNRT de superar os obstáculos mais difíceis.
- XANANA GUSMÃO é presidente do Conselho Nacional para a Resistência Timorense (CNRT) com sede em Dili (IPS)





