Timor Leste, o nascimento de uma nação - Xanana Gusmão
Xanana Gusmão
Timor Leste bem poderia ser a primeira nova nação do ano 2000. Uma nação que precisou esperar demais para nascer. Durante 450 anos, os timorenses orientais penaram sob o regime colonial de Portugal, mas logo após o fim deste sua terra foi invadida e recolonizada pela Indonésia. Nos últimos 25 anos, mais de 200 mil timorenses orientais morreram em consequência direta de seu desejo de ser livres.
Depois que o povo do Timor Leste votou esmagadoramente a favor da independência no referendo de 30 de agosto passado, unidades do Exército Indonésio (TNI) e de suas milícias lançaram uma sistemática campanha de terra arrasada para destruir um povoado que ocuparam em 1975 mas nunca conseguiram conquistar.
O organismo das Nações Unidas para os refugiados, Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) estimou que toda a população do Timor Leste, ou seja, cerca de 800 mil pessoas, viram-se deslocadas de seus lares. Mais de 230 mil timorenses orientais foram levados sob a mira de armas pelo TNI para Timor Oeste e outras ilhas da Indonésia, onde estão sendo detidos em campos de concentração controlados pelas milícias pró-Indonésia. Isto fez parte de uma campanha planificada e organizada para evitar o inevitável: a liberdade e a independência do Timor Leste.
Por duas vezes neste século, os timorenses confiaram nas promessas das nações, mas viram esta confiança traída. Agora é tempo de a comunidade internacional, por sua vez, confiar no povo do Timor Leste. Na emergência atual devemos primeiro assegurar a segurança física de nossos cidadãos deslocados dentro do Timor Leste ou mantidos como reféns na Indonésia.
Deste modo, é preciso proporcionar a todos os cidadãos alimentos, medicamentos, roupas, albergues. Por outro lado, o governo da Indonésia deve colaborar com o Acnur e com a força multinacional de paz autorizada pelas Nações Unidas a fim de dissolver as milícias e libertar os reféns que se encontram no Timor Oeste.
Em segundo lugar, nosso povo requer assistência para poder regressar livremente a seus lares e começar em paz uma nova vida. Os timorenses orientais necessitam de ferramentas e recursos imprescindíveis para reconstruir o marco da sociedade civil e restabelecer o funcionamento das instituições governamentais e das organizações não-governamentais para que estas possam guiar o processo de reconstrução, reparação, reconciliação e reintegração física, social e psicológica.
Os recentemente eleitos presidente e vice-presidente da Indonésia, juntamente com o também recém-designado governo, deram sinais de seu desejo de cooperar para o alcance dos fins antes indicados.
O sistema democrático que nós prevemos é um de genuína representação e no qual todos os elementos democráticos da sociedade, incluindo a imprensa e as organizações não-governamentais, tenham voz de modo importante na tomada de decisões. A estruturação de uma sociedade civil bem-formada, crítica e ativa é uma obrigação no processo de construção de um Estado democrático.
A reconstrução de nossa ilha começará de menos zero. A fuga de capitais, profissionais e operários, assim como de bens privados, agregada à destruição da infra-estrutura básica provocou uma contração substancial da economia, além do desenraizamento e do deslocamento de toda a nossa população estável.
Posto que reconhece que o setor privado é vital para o desenvolvimento de uma economia, a nova República do Timor Loro Sae também dará incentivos para que esse setor possa crescer. Isto é particularmente importante, dado o fato de que o governo terá uma capacidade limitada. Por conseguinte, será promulgada uma lei para proteger os investimentos nacionais e estrangeiros e o sigilo bancário.
Mas também compreendemos que o mercado não proporciona todas as soluções para os problemas econômicos e sociais. Portanto, o governo timorense tomará medidas para realizar intervenções seletivas a fim de assegurar a eficiência e a equidade dentro de uma economia diversificada.
Confio que, com a ajuda da comunidade internacional e a constante solidariedade e o trabalho de todos os nossos amigos em todo o mundo, o povo do Timor Leste tenha êxito em alcançar a independência pela qual tanto lutou.
Um Timor Leste livre e independente nascerá em breve das cinzas de nossa devastada pátria.





