Teto para quem? ''Não incentivamos invasões'', diz presidente da Cohab
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quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Há um mês, cerca de 50 pessoas ganharam o direito de morar no Jardim Campos Verdes (Zona Oeste de Londrina), uma antiga ocupação que está sendo regularizada pelo Município. Para chegar lá, elas não precisaram enfrentar a fila da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld), que hoje tem 21 mil nomes inscritos.
O grupo foi retirado de um terreno particular na Zona Sul, invadido por mais de 200 famílias no dia 30 de abril. A Cohab constatou que 11 delas não tinham para onde retornar e bancou suas diárias em hotéis da cidade, dando prazo de 10 dias para que achassem outro local. Depois de muita polêmica, acabou oferecendo lotes em área pública e kits de construção para barracos. A solução precária lançou dúvidas sobre a gestão do problema da habitação em Londrina. Nesta entrevista, quem as responde é o presidente da Cohab-Ld, Rosalmir Moreira, há quatro meses no cargo.
Qual a postura da Cohab-Ld em relação a invasões de terrenos urbanos?
Nós procuramos desincentivar essas invasões. Não tivemos muitas ocupações durante a atual administração, até pela política que aplicamos, captando recursos junto ao governo federal e atendendo à comunidade.
Parte das famílias que foram retiradas de uma invasão na Zona Sul agora estão ocupando lotes públicos, com aval da prefeitura. Isso não é um incentivo aos invasores?
Ao contrário. Ali havia 227 famílias, e depois de uma triagem bastante profunda para descobrir aquelas que realmente não tinham para onde ir, ficamos só com 11. Portanto, nosso objetivo foi alcançado.
De onde saíram as outras 216?
A invasão iniciou-se do movimento pela duplicação de uma rua, e de repente reverteu para uma ocupação. Tivemos notícia de pessoas que tinham outros imóveis, o que ficou provado quando retornaram para seus locais de origem. Se estavam precisando tanto assim de moradia, por que não vieram à Cohab se cadastrar? Temos uma fila a respeitar.
Mas as 11 famílias não estavam cadastradas e ganharam terrenos...
Na verdade, elas não ganharam. Gostaria de lembrar que nós atendemos a um mandado judicial, que nos obrigou a dar um destino a essas famílias. Nós pretendemos que sejam encaixadas em empreendimentos na Zona Sul, que é a região de origem delas. Hoje elas estão assentadas de forma provisória.
Mas o Campos Verdes, que também começou como ocupação, hoje está sendo regularizado. Não é de se esperar que as famílias acabem ficando por lá mesmo, já que a infraestrutura deve chegar mais rápido que a vez delas na fila?
Se for o caso de acabarem ficando, nós não deixamos de atender o nosso objetivo. Cada caso é um caso. Se elas não fossem para lá, onde as colocaríamos?
E o que dizer para as pessoas que se cadastraram há anos e agora vêem essas famílias atropelarem a fila?
Que tenham um pouco de paciência. A Cohab ficou 12 anos sem captar recursos do governo federal em função da inadimplência. Nós conseguimos zerar o acúmulo, e a partir de janeiro vamos ter a Cohab enxuta, pronta para viabilizar até com recursos próprios novas unidades habitacionais. Estando na fila, pode até demorar, mas um dia a casa chega.
Se algum pai de família em situação de miséria resolver seguir o exemplo daquelas famílias e ocupar um lote no mesmo local, o que vocês irão fazer?
(Pausa). Vamos conversar com essa pessoa, ver qual a situação dela, se está cadastrada. Se houver necessidade, se percebermos que não tem o que fazer, procuraremos até mantê-la lá. Mas isso não vai abrir portas para pessoas se aproveitarem da situação. Se constatarmos que é um especulador, vamos pedir desocupação imediata.
A exemplo do Campos Verdes, a Cohab está regularizando terrenos que as pessoas escolheram. Isso não tira a rédea da organização do espaço urbano das mãos do Poder Público?
Tecnicamente sim, isso nos traz um problema urbanístico, de acúmulo de pessoas em lotes que não são de tamanho ideal, causando insalubridade. Geralmente são lugares sem nenhuma infraestrutura.
E por que o Município não coíbe isso, respeitando o planejamento da cidade?
Quando áreas públicas são ocupadas, imediatamente solicitamos a reintegração. Só que existe um problema de sobrecarga judicial e o processo é lento. Com o passar do tempo, as pessoas criam raízes naquela região. Não podemos sair derrubando barracos. A forma de coibir é chegar na frente, construir as unidades primeiro. Essa ação preventiva vai depender muito do próximo administrador de Londrina.


