A tese ''Liderança, Autoridade e Contexto Político: o caso de Jaime Lerner no Paraná (1971-2001)'' conclui que o desgaste gerado pelo exercício prolongado do poder e a queda de prestígio do seu líder político são indícios de que o grupo que hoje chefia o Executivo ''corre o risco de ver consumar-se a alternância cíclica no poder''.

Lerner começou sua carreira política ao deixar a presidência do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC) para assumir a Prefeitura de Curitiba, nomeado pelo governador do Estado durante o governo militar.

Em 1970, por decisão do então presidente, o general Emílio Garrastazu Médici, o deputado federal Haroldo Leon Peres (na extinta Arena) foi colocado no cargo de governador. Um ano depois de assumir o posto máximo no Estado, Leon Peres nomeou Lerner prefeito de Curitiba. Mas, em março de 1975, o empresário Jayme Canet, ao tomar posse como governador do Paraná, não confirmou Lerner como prefeito de Curitiba, escolhendo o engenheiro civil Saul Raiz para ocupar o posto.

Após concluir seu primeiro mandato como prefeito de Curitiba, Lerner foi convidado para trabalhar no Rio de Janeiro. Foi nomeado presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana (Fundrem). Ficou apenas 35 dias à frente da fundação, e soube de sua exoneração pelos jornais.

No entanto, Lerner voltou à prefeitura da Capital. Depois de ocupar cargo de ministro da Educação na administração do general Ernesto Geisel, Ney Braga voltou ao governo do Estado (1979-83) e nomeou novamente Lerner como prefeito.

Em 1986, Lerner voltou ao Rio de Janeiro para planejar o desenvolvimento do Estado. Acabou retornando a Curitiba e se elegeu governador do Paraná pelo PDT, pela primeira vez, em 1994, assumindo o posto em 1995. A campanha foi acirrada, disputada contra o senador Alvaro Dias (hoje no PDT). Foi reeleito para o segundo mandato, em 1998, desta vez no PFL.

Folha Como o senhor avalia a proposta do governo de privatizar a Companhia Paranaense de Energia (Copel)?
Pedro Ricardo Dória Particularmente, sou favorável à venda. Só que o aspecto político tornou-se muito importante nesse caso, sobrepondo-se até ao fator econômico. O componente político nesse caso é bastante emblemático do declínio do prestígio do governador Jaime Lerner. A privatização é um assunto econômico, e tem que ser pensado em termos de racionalidade, e não de paixão política. Mas na verdade é que o fator político acabou sobressaindo nessa questão. Quando foi aprovada, pela Assembléia Legislativa, a lei que autoriza o Poder Executivo a alienar os 31,1% de participação acionária que detém da Copel (Lei 12.355, de 1998), Lerner estava em uma situação política muito mais confortável e fácil, com ampla maioria para aprovar a matéria (cerca de 40 dos 54 deputados compunham a base aliada). E, de repente, em meio a este clima de desprestígio político, chegou a haver uma proposição para revogar a autorização. E por pouco a revogação não foi aprovada pelos deputados. A autorização foi mantida graças a apenas um voto. Voto esse que o governo teve que ir buscar no afastamento do secretário dos Transportes, Nelson Justus. (O secretário, titular da vaga, reassumiu a cadeira no lugar do suplente Custódio da Silva. Justus reassumiu a pasta logo depois da votação, no dia 20 de agosto). Então nós temos, em um primeiro momento, um governador que já estava em processo de declínio. Ele veio caindo de um nível de 70% de aprovação nas pesquisas, percentual bastante alto. De início, isso não impediu que ele fosse reeleito (em 1998). Mas pode ser que o grupo continue em declínio. Então aconteceu que, durante o processo preparatório para o leilão, restaram apenas três interessadas (eram 11). E na última hora elas não depositaram as garantias e o governo do Estado decidiu adiar o leilão. E o que aconteceu? Piorou. Isso é bem emblemático, mostrando que de que de um lado temos um líder em queda de prestígio junto à opinião pública. E não há animal mais sensível aos termômetros da opinião pública do que o político, porque ele precisa estar em sintonia com a opinião pública. Ele é dominado pelo eleitor.

Folha A oposição tem batido na tecla de que o governador não está ouvindo aos apelos populares, alegando que cerca de 90% dos paranaenses são contra a venda da estatal. Além disso, o governador tem um perfil mais reservado e não tem o costume de dar muitas declarações públicas sobre o assunto. O senhor acha que, neste momento, ele está sensível à opinião pública?
Dória Ele, como ser político, está totalmente suscetível à opinião pública. Ele é dependente, dominado pelos termômetros da opinião pública. Em uma eleição, sempre alguém ganha e alguém perde. E não há ninguém que entre na competição e queira perder. O Jaime Lerner se transformou em um profissional da política. A questão de ele ser colocado na mídia mais como um técnico, um arquiteto e urbanista, é uma visão que interessava do ponto de vista do marketing. Isso era para ter votos porque os políticos estavam depreciados perante a opinião pública. O Jaime Lerner usou isso, e foi muito eficaz. Pode-se dizer que ele é o político que alcançou o maior êxito na história contemporânea do Paraná, em termos de conquista de poder.

Folha E como fica a oposição nesse quadro?
Dória Quanto mais poder alguém acumula, mais agressivos são os adversários. Tem aquele provérbio, dizendo que ninguém chuta cachorro morto. O político não quer só conquistar o poder, mas também se manter, mesmo que indiretamente. Jaime Lerner conseguiu eleger dois aliados seus para a Prefeitura de Curitiba (Rafael Greca, hoje secretário de Estado da Comunicação, e Cassio Taniguchi, ambos no PFL). Aqui no Paraná, a liderança não é vista em termos de característica de personalidade. Como exemplos de líderes carismáticos temos o Jânio Quadros (ex-presidente da República) e o Leonel Brizola (ex-governador do Rio de Janeiro e atual presidente nacional do PDT). O Jaime Lerner é personalista, como é próprio do líder carismático, mas ele não reúne determinadas características a ponto de ser comparado com Jânio, Brizola ou, mais recentemente, Fernando Collor (ex-presidente cassado) e Luís Inácio Lula da Silva (PT).

Folha Por que o senhor acha que o governador se aproximou de Brizola?
Dória O Jaime Lerner ''casou'' politicamente com o Leonel Brizola, ficando 14 anos no partido, ao qual se filiou em 1983. Eu até perguntava para as pessoas por que o Lerner se aliou ao Brizola, porque quem seria Lerner não seria Brizola. Lerner sempre foi ligado à situação. Foi um ''casamento'' de pessoas antagônicas do ponto de vista ideológico. Não seria, em tese, uma união para durar, e o mais impressionante é que durou. Eu atribuo essa duração mais às circustâncias. O Brizola havia sido eleito governador do Rio de Janeiro, e sempre teve o sonho de chegar à Presidência da República. Situação bem diferente vivia o Paraná. Por isso, Lerner deixou o PDS do Ney Braga (ex-governador), saindo de uma situação derrotada para uma situação vitoriosa. Mais tarde, nas eleições de 1994, ele conseguiu se eleger governador contra um candidato forte, Alvaro Dias. Em 97, mudou para o PFL. Sua entrada foi barrada no PSDB (pelo próprio Alvaro Dias). Na verdade, a vida política dele se divide bem claramente. Lerner começa a carreira e, após alguns tropeços, tem uma ascensão que é uma das mais significativas da política paranaense contemporânea. E quase que de repente ele entra em um processo de declínio, movimento que só vem se acentuando. Acredito que o ''clube do eu sozinho'', da opção pelo isolamento, não funciona na política. Tem os aliados, os correligionários, e os adversários. O clima político cria uma divisão, porque é o domínio das paixões.

Folha O senhor acha que o projeto do governador, de ser o pré-candidato do PFL à sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso, ainda é viável depois destes últimos episódios da Copel?
Dória No meu trabalho, coloquei essa hipótese sob o título de ''projeto ou sonho?''. Quando um político está em fase de ascensão, ele tem condições de fazer projetos políticos. Só que outra coisa é entrar em declínio, o que o deixa fora do tempo para buscar novos projetos. Mas nada impede que ele continue a sonhar. O político tem que ser uma pessoa que, quando o cavalo passa encilhado, ele monta. Tem que estar preparado, porque ele depende do cavalo. Esse projeto (pré-candidatura à presidência) estava sendo divulgado por meio do chefe da Casa Civil, Alceni Guerra. O governador até falou a prefeitos, no Recife, sobre planejamento municipal. Eu comentava que isso parecia ser para consumo interno. O grande prestígio do Lerner foi justamente na Prefeitura de Curitiba. Aqui no Estado ele sofre as agressões, os embates com a oposição, e tem um desgaste. Mas a imagem dele vai além das fronteiras do Paraná, ele continua a ser um dos políticos mais conhecidos no País. E conhecido até internacionalmente.

Folha Quais são os maiores componentes do desgaste do governador?
Dória É muito diferente ser prefeito do que ser governador. A tarefa do chefe do Executivo do Estado tem outra dimensão. Para começar, ele é um arquiteto especializado em urbanismo, não em chefia de Estado. São coisas muito diferentes. Quando eu falo em contexto político, coloco de um lado as motivações dos eleitores, e existem ainda os líderes da oposição, que criam um confronto. Então, se o líder da situação vai bem, é função dos adversários, na medida em que eles são competentes e que recebem munição das circustâncias, denegrir, atacar e gerar desgaste. Só que o papel da oposição é mais fácil. Pegando o caso da Copel como exemplo: o bloco contrário à privatização critica a venda, mas quais são as opções que eles apresentam como alternativa para equacionar a problemática econômica-financeira do Estado? Quem é que vai dar dinheiro para o governo aplicar em energia elétrica ou na previdência? Aliás, 70% dos recursos da venda da Copel devem ser destinados ao fundo previdenciário.

Folha Então não foi a forma de governar que gerou desgaste?
Dória O Jaime Lerner continua o mesmo, ele não mudou. A personalidade dele é a mesma, mas o prestígio dele está em uma curva descendente. E não sabemos quando vai parar de cair ou se haverá reversão. Muitos apostavam que, com a entrada dos recursos da Copel, o governador teria meios financeiros de recuperar pelo menos parte da popularidade e talvez se eleger, quem sabe, deputado federal. Não digo senador, que é mais difícil. Nenhum político caiu de 70% de aprovação para a metade, por isso o caso Lerner é peculiar.

Folha E o relacionamento do Executivo com o Legislativo?
Dória Há uma fragilidade dos partidos. Não há previsibilidade do comportamento dos membros da Assembléia, o que haveria se tivéssemos instituições efetivas. É um limbo de fisiologia.

Folha Como o senhor vê o cenário das eleições de 2002?
Dória Ainda estamos em um plano muito especulativo. Há um vai-e-vem muito grande dos líderes de situação e oposição, tudo muda muito rápido. Os partidos têm valido pouco ou quase nada, estão apresentando debilidade. As variáveis são muitas, é difícil prever o que vai acontecer. Mas pode-se dizer que o grupo de Lerner está em condições desfavoráveis, em uma situação precária. Temos o senador Alvaro Dias (PDT) na frente, o senador Roberto Requião (PMDB) em segundo, o PT (ainda sem candidato definido) representando a terceira força e, em quarto lugar, o lernerismo. Mas vale lembrar que normalmente o candidato que dispara na frente nas pesquisas acaba perdendo a eleição. É o caso do Lula, por exemplo.

Folha Na sua opinião, qual será o posicionamento do PSDB na corrida eleitoral do ano que vem?
Dória Esse novo PSDB ressurgiu com as bençãos do José Richa (ex-governador) e de Euclides Scalco (diretor brasileiro da Itaipu Binacional). Acredito que o partido vai trabalhar para que o grupo de Lerner apóie o candidato deles nas eleições. É praticamente o mesmo questionamento que acontece hoje no plano nacional: o cabeça de chapa sairá do PFL ou do PSDB?

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