É fértil a linha que pressupõe uma discussão histórica sobre o envolvimento da região de Foz do Iguaçu com o terrorismo e o crime organizado. Ela remonta o período colonial, onde se escondiam os guaranis novos, vítimas das ''Entradas e Bandeiras'' durante a destruição das missões jesuítas. Após um escuro de quase dois séculos, o lugar tornou-se refúgio de escravos e desertores da Guerra do Paraguai, logo, base do extrativismo e contrabando ervateiro; mais tarde foi uma espécie de fortaleza para abrigar as colunas revolucionárias de 1924; nos anos 60, um ninho de nazistas fugidos e por fim, filial da Al-Qaeda e outros grupos extremistas islâmicos.
A fase moderna, que vitima Foz através do chamado terrorismo na informação, ganhou força após os atentados em Buenos Aires no início dos anos 90, a partir disso a fronteira endureceu. Em 1999 prenderam o egípcio El Said Hassan Ali Mohamed Mukhilis, que vivia em Ciudad del Este, suspeito de matar 62 turistas em Luxor e logo depois, Jeffrey Robinson colocou no mercado editorial ''The Merger'', traduzindo para ''A globalização do crime''(Ediouro 2001), um compêndio sobre as atividades terroristas e mafiosas ao redor do mundo.
É bem possível que George W. Bush o tenha lido. O primeiro capítulo inicia assim: ''O ânus do mundo situa-se na floresta do lado paraguaio do Rio Paraná um lar afastado de casa para os cartéis da droga da América do Sul, as tríades chinesas, a Yakuza, gângsteres russos e nigerianos e terroristas do Hezbollah e se chama Ciudad del Este...Esta cidade de duzentos mil punguistas, prostitutas, arruaceiros, revolucionários, rufiões, traficantes e viciados em drogas, assassinos, chantagistas, piratas, quadrilheiros, extorsionários, contrabandistas, matadores de aluguel, proxenetas e arrivistas''. Depois disso, passou a ser comum ligar a tríplice fronteira com a face ruim do planeta.
Com o World Trade Center, Osama bin Laden, o Afeganistão, Foz com suas belas Cataratas, foi se misturar com o terrorismo nas telas da CNN. A inocente cascata, num velho calendário de farmácia, nos arredores de Kabul, caiu como a ''mãe de todas as bombas'' na região. De quebra o governo brasileiro iniciou um processo de extermínio aos muambeiros. Pencas de hotéis e empresas baixaram as portas. Essa rebordosa de valores negativos, aparentemente insolúveis e de uma complexidade absurda estacionou como uma nuvem escura, respingando chuviscos ácidos de tempos em tempos.
Recentemente a cidade foi novamente alvo do chamado terrorismo informativo, desta vez, como paraíso de férias e de dias agradáveis, de Osama bin Laden, conforme publicou a revista Veja em sua edição de 19 de março.
É impressionante como o sensacionalismo e a imperícia jornalística praticada à distância causa danos, sobretudo quando não há cuidado no discernimento entre o que é mazela e o que é potencial produtivo, no caso o turismo, uma ferramenta poderosíssima para o desenvolvimento de uma região como a de Foz.
Como explicar a sobrevivência do turismo em cidades como São Paulo, Salvador, Brasília e Rio de Janeiro, numericamente maiores em matéria de problemas? Estatisticamente há menos ocorrências envolvendo turistas em Foz do Iguaçu e sua bela região, do que qualquer outra concorrente no planeta.
A reação da comunidade é mais do que justa, mas ainda precisa-se descobrir se é o Brasil que está de costas para Foz do Iguaçu, ou ela, de costas para o Brasil. Lamentavelmente paga-se este preço pela desorganização e falta de representatividade.
ROGÉRIO ROMANO BONATO é jornalista e escritor em Foz do Iguaçu

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