O terrorismo é o fracasso da política. É o triunfo da intolerância. O terrorismo é o esgotamento da intermediação dos atores políticos frente ao conflito. Vários eram os tipos de terrorismo. O terrorismo do Estado contra o povo. O terrorismo de um Estado contra outro Estado. Mas todas estas formas foram ultrapassadas diante do que se está assistindo hoje em dia. Estamos na época do terrorismo espetáculo. Quando o medo é difundido com todo o espalhafato, de forma global. Foi o que aconteceu, da forma mais espetacular e chocante, em Nova York e Washington.
Parece que existem formas de pensamento em vários planos. Pode até ser uma maneira de bloqueio. Um escape para não receber toda a realidade de uma vez só. O jornalismo vira e mexe adota este tipo de procedimento. O drama é tão grande que os chefes de reportagem, as pessoas que decidem a edição de um jornal escrito, de um jornal de TV ou de rádio, começam a ter preocupações com o acessório. Então surgem reportagens imensas sobre as dificuldades para tirar vistos para viajar para os EUA, os espaços abertos para pessoas, que não têm nada a ver com os fatos, darem suas opiniões. E mais grave: a insistência de criar semelhanças entre situações sem a menor relação. Semelhanças ajustadas a golpes de martelo.
O assunto é terrorismo e não cabe tergiversações. As manifestações contra a globalização econômica que aconteceram em Seattle, Quebec, Gênova e várias outras cidades mostram o surgimento de uma oposição reivindicando mudanças e contestando a ordem estabelecida. Mesmo que estejam no meio destas manifestações anarquistas, porra-loucas, radicais, os tipos de sempre, existe uma busca por um espaço, uma tentativa de mudar.
No caso do terrorismo espetáculo não existe uma perspectiva de oposição. O terrorismo é visto como o único caminho para aqueles que não se identificam com a estrutura da ordem internacional existente. O terrorismo é o resultado do ódio. O ódio que pega de surpresa, que mata sem ninguém saber por quê. E aí também começam a surgir os delírios de retaliação, da Terceira Guerra Mundial, essas bobajadas. Ora, retaliar quem e o quê? Declarar guerra contra quem? É tudo muito mais complicado.
Agora, é bom que se diga, o terrorismo não é um movimento unilateral como muitos pensam. Pode e muitas vezes surge do sentimento de impotência diante da arrogância imperial daqueles que se imaginam os únicos detentores da verdade.
Na guerra ainda existem algumas regras para serem descumpridas, com o terrorismo nem isso. Aliás, é bom lembrar que pelo direito internacional, o terrorismo é tratado como crime, não como ato de guerra. O problema é identificar os culpados.
Além de ser espetacular e mediático os franceses chamariam de catódico o terrorismo espetáculo não tem nacionalidade, não faz parte de um conflito ideológico definido. É diversificado, tem pequena representação quantitativa, apresenta as mais variadas bandeiras do fanatismo religioso e filosófico. E, principalmente, tem origens nas frustrações dos pequenos grupos radicais. Às vezes é resultado da frustração de apenas uma pessoa.
Qualquer tipo de decisão para coibir o terrorismo neste momento pode ser perigosa, porque o assunto está quente. Na alma do cidadão norte-americano há um sentimento incomensurável de indignação. Um sentimento tão marcante que ele poderá agora abrir mão de liberdades individuais em nome da luta contra o terrorismo.
Delimitar liberdades conseguidas a tanto custo pode não ser a solução. A democracia já não está se sentindo bem. Vem sendo menosprezada, vem sendo relegada a um segundo plano quando a discussão é sobre a melhor forma de tomar decisões. Um dos assuntos que está na pauta é a busca de novas legitimações para a democracia. E encurtar direitos pode ser a saída mais fácil, mas não é solução. E pior, não vai resolver o problema do terrorismo.

mockup