O atentado ao semanário Charlie Hebdo, em Paris, espalhou uma nova onda de terror pela Europa e os Estados Unidos. Na última quarta-feira, homens armados invadiram a redação da publicação satírica, na região central da cidade, e mataram a tiros 12 pessoas, incluindo profissionais da imprensa e um policial. O crime seria uma reação às charges que fizeram referência ao profeta Maomé. A caça aos suspeitos ligados ao Islã começou em seguida e novos atentados foram registrados. Milhares de pessoas em todos os continentes se solidarizaram com as vítimas.
Para a doutora em Ciências Sociais e pós-doutora em Antropologia pela USP, Lidice Meyer Ribeiro, a análise sobre o atentado precisa ir muito além do conceito religioso. Em entrevista à FOLHA, a professora na pós-graduação em Ciências da Religião na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, defendeu a tolerância entre os povos, a existência de uma autocensura dos profissionais da imprensa e o respeito para o convívio em sociedade.
Qual é o grau de aversão ao Isl㠖 a chamada islamofobia - no mundo de hoje?
Realmente, você tem essa reação da islamofobia muito forte nos Estados Unidos e na Europa, principalmente na França, onde ocorreu o atentado. A França e os Estados Unidos são os dois países onde você tem um crescimento maior do Islã. Isso já gera uma desconfiança e uma sensação de insegurança muito grandes. Uma questão interessante também é que são dois países de origem cristã e esse ódio, digamos assim, entre cristãos e muçulmanos, é algo histórico. Isso gerou uma grande desconfiança histórica também que está na base de toda essa reação que temos percebido de ambos os lados.
Mas precisamos retomar a origem disso tudo. Na verdade, todo ser humano tem um problema muito sério de estranhamento com aqueles que são diferentes ou pensam de forma diferente. Todo ser humano, na verdade, tem uma reação de preconceito. O preconceito é natural ao ser humano. Só que, sem o devido domínio disso, esse comportamento pode gerar uma espécie de discriminação e até intolerância. Da intolerância parte para a violência com o risco de se transformar em xenofobia, que já é a violência física. Isso é natural do ser humano, infelizmente, e pode acontecer em qualquer local.
O crescimento do Islã é muito grande na França e nos EUA. Atualmente, nos Estados Unidos você tem mais de 6 milhões de muçulmanos e na França quase 6 milhões, são números muito elevados. Na convivência entre os dois povos, no caso cristãos e muçulmanos, isso gera o estranhamento, que remete às lembranças das guerras santas, às lembranças de fatos mais próximos como o 11 de Setembro, que acabam gerando e acirrando cada vez mais essa reação de intolerância.
Como o Brasil se posiciona em relação à discriminação religiosa?
O Brasil é um caso interessante porque nós somos um país formado por diversos povos de diversas etnias. Teoricamente, deveria ser um povo mais tolerante, já que deveríamos aceitar mais facilmente as diferenças, mas isso não acontece. A gente também tem reações de intolerância muito fortes no País. Tanto a Declaração Universal dos Direitos Humanos como a Constituição Federal do Brasil têm artigos sobre a questão da discriminação religiosa. Se as religiões convivessem de forma natural isso não seria necessário. Então no Brasil isso também é um problema sério. Não é tão sério com a questão dos muçulmanos porque eles não são um número tão elevado como nos outros países. Porém, há um crescimento grande da população muçulmana, principalmente na Região Sul. A divulgação desses fatos de forma equivocada pode fazer com que as pessoas interpretem mal essa situação, atribuindo a ação de uma minoria como se fosse algo referente a religião em si, ao Islã. Há o risco de acontecerem algumas reações de intolerância também no Brasil. Esperamos que não aconteça.
O Islamismo não prega esse tipo de ação. Na verdade, esse atentado mostrou a fraqueza de uma minoria que procura implantar pela força aquilo que não conseguiu nem pela razão e nem pela fé.
Existe uma visão da religião mesmo, que é a oficial e existem o que são as interpretações de minorias islâmicas. A gente precisa perceber que, da mesma forma como o cristianismo não é uma religião una e tem diversas vertentes, você também tem essas divisões dentro do Islamismo. A religião, originalmente, é contra atentados terroristas. A religião pode ser usada para o bem ou para subjugar, criar medo, criar temor.
De que forma seria possível reverter a islamofobia?
É algo que vai ter que ser construído com o tempo. Em 2014, o papa Francisco assinou um acordo com diversos líderes islâmicos sobre a possibilidade de realizar trabalhos em conjunto, Igreja Católica e grupos muçulmanos, em prol da paz, em prol de benefícios de várias instituições, de ajuda humanitária. É claro que essa atitude que o papa tomou não representa toda a atitude de um mundo cristão. O Cristianismo é muito dividido, mas já é um começo. Da mesma forma, os dois ou três líderes que estiveram com o papa nessa reunião também não representam todo o mundo muçulmano. É o início de um diálogo entre esses dois líderes que pode demonstrar que, apesar de não concordarem com a visão de cada um deles sobre os dogmas das religiões e sobre a própria visão de Deus, podem conviver pacificamente pelo bem da humanidade.
O Estado laico seria uma solução possível?
O Estado laico nem sempre é compreendido como deveria ser. É simplesmente um Estado que não interfere e não deixa a religião interferir nas decisões. Na verdade, o que aconteceria no Estado laico seria a permissão de todas as religiões, convivendo pacificamente. É, na verdade, a não existência da influência religiosa no governo. O Brasil e a França são estados laicos. É logico que nenhum país está isento da influência da religião, mas, no Brasil, isso é muito mais forte até porque a nossa colonização está ligada muito fortemente à religião. Nós fomos colonizados e cristianizados ao mesmo tempo. É por isso que até hoje temos muitas influências cristãs no calendário. A grande questão do Estado laico é a tolerância, estimular a possibilidade de convivência. A solução seria isso mesmo, você conviver harmonicamente sem desrespeitar a crença do outro. O Estado laico não é um Estado ateu.
No caso específico do atentado ao Charlie Hebdo, é recomendável haver limites para a liberdade de expressão?
Esse atentado chamou a atenção do mundo, na verdade, para até onde a liberdade de expressão deve ser realmente permitida. É um período desafiante e muito difícil este que estamos vivendo, até pela questão dos direitos humanos, dentro dessa liberdade de expressão. Levanta a discussão: será que é possível fazer uma crítica religiosa? Sim, é possível. O direito a fazer uma crítica religiosa, criticar os dogmas ou mesmo os encaminhamentos de uma religião, é figurado justamente pela liberdade de opinião, a liberdade de expressão e isso é possível, sim. No entanto, isso tem que ser feito com respeito e sem estimular, de forma alguma, o ódio desse grupo religioso ao qual está sendo feita a crítica. A crítica é uma postura que pode ser construtiva, ainda mais em um país ou em um mundo que a gente vive onde, muitas vezes, é quase que impossível separar a religião da política social. As críticas religiosas vão acontecer e elas são essenciais até mesmo para a existência da democracia. Só precisamos aprender a fazer críticas com o devido respeito.
Deveria haver uma certa autocensura ou um órgão regulador para impor o respeito a determinados limites?
Um órgão regulador seria algo extremo e até perigoso. Eu acredito que isso pode acontecer a partir do momento em que uma situação crítica como essa da França suscite o debate e possa então criar as condições de uma autorregulação, em que cada profissional ligado à mídia tenha a capacidade de avaliar as possíveis consequências das suas ações e assim tomar as devidas decisões. Isso não deve ser só dentro da mídia em si. O fato pode gerar uma discussão dentro da própria sociedade de até onde devem ir os limites dessa crítica em relação a religião do outro.

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