Terror e tolerância
O terrorismo, como arma polí tica ou religiosa, merece o mais veemente repú dio de todas as culturas políti cas fundadas em princípios éticos e de todas as religiões fundadas em princípios morais. Cause o número de mortes que causar, uma ou duas pessoas ou dezenas de milhares, o terrorismo é um ato injustificável e inconsequente: ele visa apenas a alimentar a chama das convicções de quem o pratica e não se importa nem assume responsabilidades com as consequências que gera, por mais terríveis que sejam.
Mas não podemos esquecer que, se o terrorismo é condenável, seja ele praticado nos Estados Unidos, em Israel, na Espanha, na Inglaterra ou na Rússia, igualmente condenáveis são também os bombardeios praticados contra populações civis. Por mais improvável que seja o banimento da violência política, étnica e religiosa no futuro próximo, nunca podemos abandonar a posição moral de sua condenação. Isso significaria abrir mão da perspectiva de que as histórias dos povos e a história da humanidade devem ser construídas na base de que o homem é um ser moral. Nenhum fim, político ou religioso, e nenhum meio podem estar acima da vida de um ser humano.
É com base nessa idéia que atos militares de vingança ou de retaliação que possam vir a ser praticados pelos EUA se inscreverão na inconsequência de alimentar ainda mais a espiral de violência no planeta. Trata-se, isso sim, de identificar os responsáveis pelo planejamento e colaboradores dos terroristas suicidas e de levá-los a julgamento. Se os responsáveis se abrigam em algum país, trata-se de exigir e de pressionar para que sejam entregues.
As consequências dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono revestem-se de enorme complexidade. Nos EUA e em outros lugares cresce a animosidade contra muçulmanos e árabes. Diante disso, é conveniente semear a lição de tolerância do escritor israelense Amos Oz: ''Que nenhum ser humano decente se esqueça de que a imensa maioria dos árabes e outros muçulmanos não é cúmplice do crime.''
Aproveitar-se do horror suscitado pelos atentados para disseminar o maniqueísmo de que se trata de uma ''batalha monumental do bem contra o mal'', como disse o presidente Bush, representa uma tentativa indevida de aquinhoar uma posição moral superior para justificar atitudes que podem revestir-se de imoralidade.
O problema é que não basta condenar o terror. É preciso extrair duras lições de sua existência. O terror, em parte, se origina da marginalização, da exclusão da e segregação. O mundo globalizado, hoje, é ao mesmo tempo um mundo excludente. Os EUA, com o seu universalismo unilateral, são o símbolo mundial da exclusão e da prepotência. Aliás, os EUA se encontram num momento de declínio moral e de perda de legitimidade internacional.
Há poucos dias, a delegação norte-americana abandonou a Conferência sobre Racismo na África do Sul, numa demonstração de desprezo pelos outros. Os norte-americanos usaram armas radioativas na intervenção em Kosovo, contaminando a população local e os seus próprios soldados. A atual administração vem praticando um festival de arrogância, soberba e isolacionismo.
Se Osama Bin Laden e o Taleban representam o ''Grande Satã'', é preciso lembrar que foram estimulados pelos americanos no enfrentamento contra o Exército da União Soviética, no Afeganistão. A prática de atentados por extremistas de direita norte-americanos, como o que ocorreu em Oklahoma em 1995, é um sintoma da fissura moral interna dos EUA.
No mundo pós-guerra fria, ao que tudo indica, a segurança ou será mundial e coletiva ou não haverá segurança alguma. Arsenais nucleares, escudos antimísseis e outras armas podem mostrar-se impotentes até mesmo diante de um instrumento prosaico e primitivo, como uma faca. Nesse sentido, os atentados tendem a mudar o próprio conceito de poder. Vivemos numa época em que o poder não se define mais apenas pelas relações entre Estados. Questões de ordem étnica, religiosa, moral e civilizacional também entram como fatores na definição de relações de poder. O superpoderio revelou-se impotente diante da simplicidade de meia dúzia de fanáticos.
A base de um mundo tolerante e pacífico deve ser construída sobre o reconhecimento de que não há uma única civilização universal, nem mesmo a ocidental. É preciso reconhecer que vivemos numa pluralidade de civilizações, de culturas, de religiões, de etnias e de modelos políticos e econômicos. O que deve e pode haver em comum entre essas pluralidades são alguns valores e princípios morais. Poderão ser eles, por poucos que sejam, o fermento de um mundo mais solidário e menos excludente. Poderão ser eles também o impulso da consciência de que a humanidade, na sua diversidade, é única e todos somos responsáveis uns pelos outros na medida em que dependemos cada vez mais uns dos outros, em todos os sentidos.
- JOSÉ GENOINO é deputado federal pelo PT-SP





