Terror é terror em qualquer lugar - Hélio Doyle
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de agosto de 1998
Hélio Doyle 
As bombas que explodiram na Tanzânia e no Quênia tinham como alvo os Estados Unidos, mas mataram e feriram muito mais africanos do que norte-americanos. Essa é a lógica - ou, melhor, a falta de lógica - desse tipo condenável de combate que mata e fere indiscriminadamente, pois atinge civis e militares, adultos e crianças, inocentes e culpados.
O terrorismo é a arma dos irracionais, que levam suas crenças políticas, religiosas ou comportamentais às últimas consequências do fanatismo e às vezes da loucura. Esses irracionais acreditam que degolar crianças, explodir bombas e atirar em multidões são atos que fortalecem suas causas, quando as enfraquecem.
São terroristas irracionais, por exemplo, os fundamentalistas argelinos, os paramilitares de direita da Colômbia, os neonazistas da Europa, os talibãs do Afeganistão, os racistas da Ku Klux Klan dos Estados Unidos. Agridem e matam irracionalmente.
Como se vê, há terroristas irracionais de diferentes raças, credos e convicções. Ao contrário do que pensam alguns preconceituosos, o terrorismo não é prerrogativa de algum povo, de alguma raça ou de alguma ideologia. Está bem espalhado e disseminado. Não há como negar que o terrorismo, muitas vezes na História, foi e é a arma de desesperados. De grupos que não encontram canais de manifestação, não têm como se expressar, vêem-se encurralados, ameaçados, vítimas da intolerância mais radical.
Não se trata de justificar as ações terroristas desses grupos, mas de entendê-las no contexto em que se realizam. O que, de maneira alguma, as torna mais suscetíveis de aceitação. O recurso irracional à violência nunca pode ser aceito. Guerra é guerra, terror é outra coisa. O caso da Argélia é um bom exemplo. Os fundamentalistas ganharam o primeiro turno das tais eleições livres tão defendidas pelas potências ocidentais e iriam ganhar o segundo turno. Antes que isso acontecesse, os militares deram um golpe e cancelaram as eleições, com a aprovação das mesmas potências, temerosas de um governo islâmico radical. Isso não é novidade. As eleições livres geralmente só interessam quando a vitória do status quo está assegurada. Se há risco, as eleições tornam-se indesejáveis.
Alguns fundamentalistas argelinos, sentindo-se com razão traídos e marginalizados, recorreram às armas. Resistir à opressão é considerado um direito dos oprimidos. Mas esses fundamentalistas sucumbiram à tentação de seguir pelo caminho mais fácil do terror: são quase diários os relatos de homens, mulheres e crianças assassinados cruelmente. Isso não é luta política, é violência criminosa.
O terror, tal qual o praticado em Dar-es-Salaam e Nairóbi, é simplesmente um crime. Mas não podemos cair na hipocrisia de apenas condenar a explosão de carros-bomba e aceitar passivamente o bombardeio de bairros residenciais e hospitais, como ocorreu na Guerra do Golfo. Os carros-bomba são tão condenáveis quanto as bombas levadas por mísseis inteligentes ou aviões sofisticados. Não se justificam pela melhor causa política ou religiosa que possa haver. Qualquer guerra santa é uma aberração. Venha do Oriente ou do Ocidente.
HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília


