Terror de gravata
Hélio Doyle
Os motivos são sempre apresentados como os melhores. Há sempre ótimas razões para justificar o bombardeio de um país, de uma cidade, de uma aldeia. Para explicar as mortes de homens e mulheres, idosos e crianças, jovens engajados ou não na luta a favor ou contra alguma coisa.
Tem sido assim por todo o século, e não entraremos em 2000 com um quadro diferente. Na verdade, não entraremos em um novo milênio, no ano 2001, com uma situação melhor do que essa que vivemos hoje. O bombardeio aéreo é o novo tipo de terrorismo. Um terrorismo perigosíssimo, praticado por Estados, por governos. É institucional, legitimado.
Os Estados Unidos encontraram justificativas para jogar bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Os aliados, pouco antes, haviam justificado o bombardeio que destruiu Dresden, na Alemanha nazista e não havia um só alvo militar na cidade. Os nazistas bombardeavam Londres (e essa, seguramente, não foi a maior atrocidade que cometeram). Nada disso se justifica, mas de qualquer maneira haverá sempre a explicação de que havia uma guerra e, nesses casos, uma Grande Guerra.
No Vietnã, bombas foram jogadas indiscriminadamente pelos norte-americanos sobre cidades e aldeias. Bombas incendiárias, de Napalm, em tese para desfolhar árvores, arrancavam a pele de pessoas, como as crianças queimadas, correndo e chorando, mostradas numa das fotos mais conhecidas da agressão àquele país.
Não dá para citar todos os exemplos de bombardeios criminosos em nome de guerras pretensamente justas. Há muitos, muitos outros, principalmente na Ásia e na África. Mas esperava-se que acabassem, com o fim da Guerra Fria. Que, sem o confronto ideológico entre o capitalismo e o comunismo, sem o ‘‘perigo’’ que a União Soviética representava, não haveria mais razões para guerras e bombardeios.
Ingenuidade, claro. Parecida com aquela dos que acharam que a História tinha mesmo acabado com a ‘‘vitória’’ do capitalismo. As guerras continuaram, pois inimigos – reais ou não – sempre podem ser encontrados. E sempre haverá justificativas para bombardear e arrasar cidades, para matar e mutilar pessoas.
O ano que termina foi exemplar. O Iraque continua sendo atacado quase diariamente por aviões britânicos e norte-americanos. Os países tidos como os mais ‘‘civilizados’’ do planeta bombardearam a Iugoslávia durante 70 dias. E, depois, comprovou-se o que se suspeitava: os ataques a alvos civis não eram equívocos, eram propositais, para reduzir a capacidade de resistência da população. Os Estados Unidos ainda bombardearam, sem mais nem menos, uma fábrica de remédios no Sudão e o Afeganistão.
A Rússia, que tanto protestou contra os ataques aos sérvios na Iugoslávia, agora bombardeia a Chechênia, adotando a mesma política dos aliados ocidentais que, cinicamente, protestam em defesa dos chechenos. E, nos últimos dias, ainda houve o bombardeio de uma escola no Líbano pelo exército de Israel (os israelenses, pelo menos, pediram desculpas pelo erro, não ficaram inventando justificativas).
Entramos em 2000 e, para alguns, em um novo milênio às voltas com esse novo tipo de terrorismo. E obrigados a conviver com terroristas perigosos, que recebem honras de chefe de governo: Bill Clinton, Tony Blair, Bóris Yeltsin. Mas, pelo menos, nos livramos de Benjamin Netanyahu.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília

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