Há sinais evidentes de que o presidente Fernando Henrique está saindo da toca, aliás, do Planalto, para mostrar a cara na planície. A recente visita à Santa Catarina, a ida à Juquitiba (SP), nesta semana, e a viagem ao RN, no próximo dia 21, onde vai inaugurar uma adutora, fazem parte da estratégia de energização regional, fundamental para a popularização de seu nome. Numa escala de 0 a 100, onde a metade de baixo represente graus de aproximação com as massas e a metade de cima simbolize níveis de identificação com as elites, Fernando Henrique estaria próximo ao índice de 80. Ou seja, o presidente está muito mais próximo do andar de cima do que do piso de baixo.
Não significa que o presidente esteja em má situação com as massas. As pesquisas mostram que conta com o apoio de ampla maioria da população. Ocorre, porém, que ele está distante do povo, das regiões, das realidades interioranas. Prova disso é que o Palácio do Planalto tem se tornado um palco de eventos, mobilização e discursos. Sente-se que Fernando Henrique bota mais gosto no contato com formadores de opinião, líderes, grupos organizados e o meio associativo. Sua figura é uma estampa que contrasta com as caras surarentas e as testas franzidas e atentas diante dos escassos palanques inaugurativos.
Se decidiu por o pé na estrada é porque sua alma política percebeu que a campanha da reeleição precisa começar mais cedo. Não há dúvida de que teve início a maratona dos 6 anos. E o momento é propício. Antes, era arriscado chegar aos Estados na sombra das imagens desgastadas de governadores. Hoje, esse risco quase não existe. Em diversos Estados, os governadores iniciaram um processo de alavancagem de imagem. Em São Paulo, Mário Covas, com sua eterna zanga, agora se dá ao prazer do riso, ele que se orgulha de estar fincando o maior programa de saneamento básico da história do Estado, além do saneamento financeiro. No RN, Garibaldi Alves sobe a escada do prestígio, colocando-se também no mosaico seguro das recandidatos. E assim quase todos se levantam, de Amazonino Mendes, no Amazonas, a Antônio Brito, no RS, sem deixar de considerar Paulo Souto, na Bahia, Roseana, no Maranhão, Lerner no Paraná, Neudo Campos, em Roraíma, e até o baixinho José Maranhão, na Paraíba. Uma exceção pode ser Suruagy, de Alagoas, que luta para sair do maior buraco da história do Estado.
Cavalgando o prestígio em ascensão dos governadores e sentado na sela de seu fogoso cavalo, Fernando Henrique sente-se confortável para enfrentar a suadeira dos palanques a sol aberto. No plano político, está tranquilo com os comandos de Antônio Carlos Magalhães, no Senado, e Michel Temer, na Câmara, o primeiro, de estilo mais imperial, envergando o marketing da moralização, e o segundo, de comportamento mais democrático, abrindo o processo de participação parlamentar. Ambos, porém, comprometidos com a agilização das reformas e refluxo de instrumentos abusivos, como as Medidas Provisórias. Fernando Henrique conta com as reformas e a retomada do programa de privatização, a partir da Vale do Rio Doce, para deixar a cabeça mais tranquila no travesseiro da estabilidade, fator primoridal para sua reeleição.
Tudo está a favorecer seu projeto. Maluf saiu chamuscado do episódio da aprovação da emenda da reeleição. É mais que evidente o declínio geral das oposições partidárias, que não apresentam propostas alternativas ao país. O Movimento dos Sem-Terra é a única grande força organizada, e mesmo assim está ameaçada pelo desgaste das linguagens divergentes de simpatizantes e integrantes. A imprensa continua a exaltar o discurso governamental, não se devendo esperar também daí oposição desmanteladora. Por tudo isso, as viagens do presidente vão encontrar terreno limpo e céu de brigadeiro. Com direito à intervalos para brindar no Olimpo de estrelas internacionais, como Chirac, e a satisfazer o gostinho por festas e quitutes.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista e analista político.

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