Terremoto mexicano
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de julho de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
É possível que o título desse artigo não induza muitos leitores a percorrer com os olhos as poucas linhas que aqui lanço, a menos que se pense que descrevi um terremoto no sentido físico, daqueles que de quando em vez sacodem o México, rachando o solo e fazendo tragicamente vítimas. Mas não é disso que trato aqui, mas sim do terremoto político que fendeu o Partido Revolucionário Institucional (PRI), que por sete décadas governou os mexicanos como partido dominante e que apresentava um poder de votos em campanha quase impossível de ser superado por partidos menores. Com tamanho poderio não faltaram ao PRI deformações como a corrupção, o populismo, o paternalismo, a hipocrisia evidenciada na diferença entre o que se faz e o que se diz. Afinal, o PRI é um partido latino-americano como outro qualquer, e os leitores podem começar a perceber que a realidade política mexicana teve sempre de certo modo algo a ver com a nossa em termos de corrupção, populismo, paternalismo, hipocrisia partidária etc., guardadas, é claro, as grandes diferenças históricas como, por exemplo, as revoluções que sempre assolaram aquele país. Portanto, o que ocorre no México deveria nos interessar, pois se tudo que acontece no mundo está interligado e acaba repercutindo no Brasil.
Mas teria sido o PRI uma ditadura como muitos interpretam? Segundo afirmou Carlos Rangel na sua notável obra Do bom selvagem ao bom revolucionário, o governo mexicano do PRI não foi tirânico mas muitíssimo forte, o que correspondeu às exigências da alma latino-americana em geral e da alma mexicana em particular. Na verdade, diz Rangel, o PRI foi um partido praticamente único, que não procurou conhecer a vontade do povo mas que a interpretou por meio de eleições simbólicas nas quais ele atribuia invariavelmente a si mesmo 90% dos votos. E o presidente do México, chefe absoluto desse partido durante seis anos, era um monarca virtual, ou antes um ditador. As outras engrenagens do poder público, tais como o Congresso e os tribunais, eram, por assim dizer, simbólicas e dependentes do presidente. O mesmo acontecia com as Forças Armadas, e a informação, incluindo a imprensa (e não apenas o rádio e a televisão) era (e com certeza vai continuar a ser) diretamente controlada pelo governo ou obrigada a respeitar os limites, fixados por sutis convenções, de uma crítica independente admissível. Quanto ao setor privado da economia, vivia em simbiose com o governo e com o PRI, o mesmo acontecendo com os sindicatos e federações de camponeses.
Significativa, porém, é a seguinte observação de Rangel, a qual me faz recordar uma realidade muito conhecida: no último degrau daquela hierarquia encontravam-se as massas. Elas não falam, mas esperam que os dirigentes falem por elas, e estão aparentemente dispostas a conceber um crédito excessivo a quem souber expor com brio teses agradáveis à nossa psicologia coletiva.
Agora deu-se o terremoto político no PRI, pois nada dura para sempre. O partido perdeu a maioria na Câmara dos Deputados, e Cuauhtémoc Cárdenas, do Partido da Revolução Democrática (PRD), conseguiu chegar ao governo do DF.
Seria, porém, um tanto precipitado afirmar que com essa mudança política mudou radicalmente a mentalidade do povo mexicano. Talvez, num dos países mais corruptos da América Latina, as denúncias de corrupção e envolvimento com o tráfico de drogas do governo Carlos Salinas de Gortari, o colapso financeiro no início de 1995, as denúncias e escandâlos envolvendo a cúpula do PRI, podem ter aberto maior espaço na vontade dos mexicanos de rever a escolha dos seus governantes. E para isso deve ter contribuído também a retórica de políticos como Cárdenas, um populista de esquerda e contrário às reformas econômicas.
De qualquer modo, os candidatos vitoriosos devem cuidar zelosamente de manter-se no poder, pois, como disse Maquiavel, a natureza dos povos é inconstante. Há pouco tempo atrás, exatamente em 1982, os mexicanos aplaudiam com entusiasmo o chamado liberalismo social do ex-presidente Carlos Salinas de Gortari. Este havia incluido na sua política a abertura para o mercado externo e avançara em programas de combate à inflação. Além disso, desfrutava de uma maioria tranquila no Congresso, de um partido majoritário domesticado, centrais sindicais comportadíssimas, imprensa ostensivamente favorável, empresários simpáticos e oposição desarticulada.
Passados, contudo, setenta anos de hegemonia, o PRI perde a maioria no Congresso e o Distrito Federal. Será isso sinal de democracia ou de retrocesso simbolizado pelo esquerdista Cárdenas? Como escreveu Gilberto de Mello Kujawski: A América Latina está perdida entre a sedução da modernidade e a nostalgia do arcaico no apelo solar dos seus caudilhos, nas soluções fáceis do populismo, nos maus hábitos renitentes do patrimonialismo e do clientelismo. Que nos acautelemos no Brasil. Afinal, o México não traduz uma realidade tão distante assim.


