Curitiba Nos idos de 1870, levas de poloneses, italianos e ucranianos chegaram ao Brasil desiludidos pela falta de pespectivas na Europa e seduzidos pelas promessas do governo brasileiro de que aqui teriam terras para cultivo e criação de animais. Ao instalarem-se em lugares bem providos de água e com solo fértil para o trabalho, na Região Metropolitana de Curitiba, não podiam imaginar que 120 anos depois seus filhos, netos e bisnetos teriam que deixar suas casas ou procurar outras áreas porque a terra escolhida se transformaria em uma grande represa ou seria cortada por uma ferrovia.
A situação já aconteceu e continua de repetindo em diversas comunidades. A primeira barragem, construída em 1890 nos mananciais do Carvalho, em Piraquara, de certa forma já anunciava uma tendência futura para o abastecimento de água de Curitiba. Área de nascentes em sua maioria, na Serra do Mar, a região sempre foi vista como uma fonte rica e potencial de água.
''As barragens são um problema sério, mas não há outra opção porque Curitiba está a 900 metros de altitude. É o único jeito de garantir abastecimento em períodos de estiagem'', diz o geógrafo Paulo Cézar Tosin, superintendente de Meio Ambiente do Projeto de Saneamento Ambiental do Paraná (Paranasan) órgão do governo estadual responsável pelas obras da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar). Ele admite que, apesar do planejamento, as construções estão gerando cada vez mais conflitos sociais porque mexem com mais comunidades.
Uma das primeiras atingidas pela obra de barragem foi a Colônia Thomaz Coelho, uma das maiores de imigrantes poloneses nas proximidades de Curitiba. A colônia surgiu em 1876, formada por aproximadamente 300 famílias vindas da Ucrânia, Galícia e Prússia hoje integradas à Polônia , que escolheram para viver o município de Araucária, também na região metropolitana. Ao colocá-los ali, o objetivo do governo era garantir o abastecimento de gêneros agrícolas para a Capital.
Por muitos anos foi o que aconteceu. Até que em 1988, após oito anos de construção da barragem, 8 mil hectares (80 quilômetros quadrados) da área foram alagados formando a Represa do Passaúna. ''Foi um caos. Ao redor de toda barragem, 314 famílias tiveram terras desapropriadas, sendo 60 da Colônia Thomaz Coelho'', diz Antonio Gembaroski, 66 anos, presidente do Sindicato Rural de Araucária. Ele conta que a represa acabou separando as famílias. Grande parte acabou deixando as terras. Quem ficou, dividiu-se entre 11 comunidades existentes atualmente no local. Hoje o local é alvo constante de roubos por pessoas pescam na represa.
''Thomaz Coelho foi um desastre. Não houve um planejamento. Só construíram a barragem, sem se importar com quem morava lá'', concorda Paulo Tosin. O problema é que situações parecidas continuam acontecendo.
É o caso dos italianos do Vale Trentino, instalados na Estrada do Tirol, entre São José dos Pinhais e Piraquara, que se preparam para enfrentar a desapropriação para a construção da barragem de Piraquara II. As obras começam em outubro e o alagamento da represa está previsto para começar em um ano. Os poloneses da Colônia Murici, em São José dos Pinhais, também se preocupam com o projeto da Represa do Miringuava, prevista para ser iniciada em 2004. Impacto parecido estão sofrendo os poloneses da Colônia Dom Pedro II, em Campo Largo, que terão suas terras desapropriadas para a passagem da linha férrea do Contorno Ferroviário.
A reclamação principal das comunidades atingidas, seja pelas barragens ou pela estrada de ferro, é a falta de informações oficiais. De acordo com Tozin, as duas comunidades já se manifestaram favoravelmente à construção das barragens. Na prática, não é o que se vê. Os moradores da Bacia do Miringuava entraram inclusive com ação civil pública contra a Sanepar e o governo do Estado, na 2 Vara de São José dos Pinhais, para impedir a construção. E a comunidade da Colônia de Santa Maria da Nova Tirol também está se organizando para formar a Associação dos Atingidos pela Barragem de Piraquara II.

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