Terra de
ninguém
Mirian Guaraciaba
Assuntos recorrentes, como recorrentes, infelizes e lamentáveis têm sido os fatos que se repetem no País de forma cada vez mais preocupante. Mais uma rebelião no fim-de-semana na Febem de São Paulo. E sempre que acontecem rebeliões ou fugas – em presídios comuns ou unidades da Febem espalhadas pelo Brasil – misturam-se em nós, brasileiros, sentimentos de indignação e impotência. Sentimentos recorrentes.
Em São Paulo, a tropa de choque da Polícia Militar atirou nos menores e em seus familiares para tentar segurar a rebelião. A providência não evitou a fuga de dezenas de jovens infratores. O quadro da violência no País é tão grave que o governador paulista Mário Covas admitiu, num seminário, no Rio de Janeiro, que, dificilmente, conseguirá conter a onda que sufoca a população.
Constatação dura, mas verdadeira. Covas não é um político comum, dos que costumam mentir. Admitir que o problema é maior do que seu governo não quer dizer que não vai combatê-lo, mas que a solução não depende única e exclusivamente dele.
A violência e a insegurança são consequência direta do desemprego, da volta da inflação, do aumento dos miseráveis. Contra todas as afirmações de autoridades do governo de Fernando Henrique Cardoso, estudos recentes do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) revelam que os pobres são muitos, milhões.
Diz o Ipea que a maioria da população (50,2%) é pobre. Isto quer dizer que cerca de 78 milhões de pessoas têm renda inferior a de R$ 149,00 por mês. Mais grave ainda: sobrevivem no País 43 milhões de indigentes. Quase 30% da população ganhando menos de R$ 73,00 mensais.
Pelos cálculos da Organização Mundial de Saúde (OMS), da ONU (Organização das Nações Unidas), com este dinheiro não é possível alimentar-se de acordo com padrões mínimos de consumo de calorias. Para pôr fim à miséria – ou minimizar o sofrimento deste povo – seriam necessários R$ 19 bilhões. Menos do que o governo gastou desde 1995 para socorrer bancos quebrados.
Enquanto a situação torna-se cada dia mais grave, assistimos, mais uma vez, a troca de farpas e acusações entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e os políticos. Anteontem, em discurso no Rio de Janeiro, o presidente FHC acusou o Congresso de promover o atraso do País, ao não votar as reformas – que, efetivamente, estão emperradas há cinco anos nas gavetas dos congressistas.
E emendou FHC, criticando a demora e a indecisão na aprovação da reforma tributária e reafirmando autoridade: ‘‘A indecisão não é do presidente da República, é de quem posterga, de quem não vota, de quem adia, de quem não aparece, não comparece, de quem tem medo de votar’’, afirmou.
Nem de longe, o presidente admite que a política recessiva, de juros altos (só agora, os juros dão sinal de queda) também empurra o País ladeira abaixo. Só culpou o Congresso pelos juros altos. O quadro econômico, de miséria, violência e rebeliões tem muito mais a ver com a condução da economia do País, com os arrochos dos acertos internacionais (leia-se FMI), do que com o andamento dos projetos do governo no Congresso.
Não se discute que as reformas são importantes. Mas quando o presidente reclama, fica a dúvida: quem está falando a verdade? No caso da reforma tributária, a reação foi parecida, na forma e no conteúdo. ‘‘Não se votou a reforma tributária porque o governo não quis’’, disse o senador Antonio Carlos Magalhães. Ele disse ainda que ‘‘o governo não tem tanto empenho na aprovação da reforma’’. O mesmo repetiu o presidente da Comissão de Reforma Tributária, deputado Germano Rigotto. Os dois são aliados do presidente.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

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