TERCEIRO SETOR - Voluntariado exige mão de obra qualificada
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terça-feira, 26 de maio de 2009
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
O terceiro setor é um segmento que vem crescendo significativamente no Brasil. As Organizações Não Governamentais (ONGs) somam cerca de 20 mil em todo o país, sendo a grande concentração em pequenos e médios centros urbanos.
De acordo com o Ministério de Combate à Fome e Desenvolvimento, em 2015 o território brasileiro vai contar com aproximadamente 60 mil ONGs. Onde o Estado não tem condição de atuar, cria-se uma instituição de terceiro setor.
Fernando Rodrigues de Carvalho, consultor em gestão estratégica de negócios e sustentabilidade, do Rio Grande do Sul, esteve em Londrina para palestra na PUCPR e afirma que o Brasil é o país onde o voluntariado mais cresceu nos últimos anos. Ainda assim, o número é bastante inferior se comparado a outras nações.
''Nós ainda temos que crescer muito'', assegura Carvalho, revelando que os países desenvolvidos têm em média 10% da população ativa vinculada a alguma ONG enquanto no Brasil o índice é de 1,6%. Segundo ele, o terceiro setor é um mercado de trabalho promissor.
Qual a importância da profissionalização do terceiro setor?
Não basta ter boa vontade, é preciso saber administrar. O terceiro setor necessita de mão de obra qualificada para gerir o capital. A gestão do terceiro setor precisa deixar de ser uma matéria de especialização e se tornar uma graduação. Algumas universidades já estão fazendo ensaios para isso. No entanto, os gestores desse segmento têm dificuldade de se capacitar.
O que a profissionalização pode garantir às ONGs?
Sobrevivência. Hoje existem algumas fundações e entidades beneficentes que são geridas por famílias. São pessoas de boa vontade que se propõem a fazer filantropia e o bem comum. No entanto, essas pessoas não têm o intelecto para fazer o planejamento estratégico, o plano de sustentabilidade e manter a estrutura como um negócio. O terceiro setor é um negócio. A diferença está no lucro que ele apura ser revertido para ele mesmo. O fato de não ter fins lucrativos não significa que o negócio precisa falir. Pelo contrário. Eu preciso gerar sustentabilidade.
E quem deve qualificar os voluntários?
As instituições de ensino devem oferecer cursos de qualificação. Também pode haver incentivo para a qualificação do voluntário. Uma ONG deve receber verba pública para qualificar o seu participante. No mundo, 30% do financiamento de uma ONG é feito pelo Estado. No Brasil esse número não chega a 15%. Ou seja, o Estado brasileiro ainda é ausente na contribuição do terceiro setor.
Atualmente há profissionalismo no terceiro setor?
Hoje nós temos a Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), que permite que seus dirigentes sejam remunerados e se tornem funcionários. Dessa forma, pessoas qualificadas são realmente empregadas. O voluntariado sempre vai existir, mas há necessidade de uma gestão de recursos para que a ONG não desapareça. Com a Oscip é possível fazer parcerias com o Estado, contratar pessoas capacitadas e gerir a ONG com sustentabilidade. O Estado quer fazer parceria com uma Oscip, pois o custo operacional é mais barato. Se contratar uma empresa qualquer vai ter custo com impostos e, além disso, a Oscip presta serviço de utilidade pública.
Existem muitas Ongs que não têm mais voluntários e sim funcionários?
Diria que as contratações são muito relativas. As ONGs têm funcionários em funções burocráticas, como recepcionista, telefonista e faxineira. Nas funções técnicas a ONG não pode remunerar o profissional, a não ser que seja uma pessoa qualificada. A ONG não pode contratar um gerente e um diretor com remuneração, por exemplo.
O papel da ONG e o perfil dos voluntários está mudando?
Sim. Acho que nos últimos cinco anos nós evoluímos mais do que nos últimos 30. Mas no Brasil as ONGs ainda têm um longo caminho. É um mercado de trabalho que vai crescer muito.
Como o senhor avalia as fraudes que envolvem o terceiro setor?
Se você é entidade filantrópica precisa cumprir metas. Na saúde, por exemplo, é preciso atender 60% dos pacientes pelo SUS. Já as escolas são obrigadas a aplicar 20% de suas receitas em bolsas gratuitas. Muitas entidades beneficentes não cumpriam esses requisitos e continuavam com o certificado de entidade beneficente de assistência social. Hoje o governo está tentando combater a falcatrua e diversificar.


