O aumento da expectativa de vida do brasileiro é sinal de avanço. Números recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a esperança de vida ao nascer no Brasil em 2011 era de 74 anos e 29 dias. No ano anterior, a expectativa de vida era de 73 anos e 277 dias. E a evolução é bastante expressiva na comparação com 2000, quando o número não passava de 70 anos e 182 dias.
O problema é que o avanço também traz desafios para os quais o País não está preparado. É o caso dos crimes contra quem já chegou à terceira idade. Em muitos casos os velhinhos são as vítimas preferenciais dos bandidos, por conta de uma série de fatores, que inclui a dificuldade de locomoção e até uma certa ingenuidade deles. Em diversas oportunidades, os crimes são praticados por pessoas da própria família dos idosos.
Uma das medidas governamentais mais efetivas para defesa desse público foi a aprovação do Estatuto do Idoso, em vigor desde 1997. Outra iniciativa importante foi a criação das delegacias de proteção ao idoso. As unidades têm o mérito de garantir o acolhimento do idoso que é vítima de violência, o que incentiva os velhinhos a denunciar os crimes.
"Assim o idoso consegue ser atendido em uma delegacia que é voltada exclusivamente para este tipo de público. Ele se sente mais à vontade para falar, conversar, para explicar sobre a queixa, o que ele está passando. Ele se sente melhor por estar sendo atendido em uma delegacia em que a maioria dos crimes que registramos está prevista no Estatuto do Idoso", garante a delegada Marli Tavares, titular da 1ª Delegacia de Proteção ao Idoso de São Paulo.
No Paraná, existe uma lei aprovada desde 2000 que autoriza a criação da delegacia de proteção ao idoso, mas até hoje a medida não foi colocada em prática. Estados como Amazonas, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Maranhão e Tocantins já possuem delegacias especializadas no atendimento ao idoso.
A delegada Marli Tavares vai ministrar a palestra "Vamos romper o pacto do silêncio" na próxima sexta-feira no Auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Londrina. O evento marca o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, comemorado em 15 de junho.

Por que é tão importante o investimento em uma estrutura como a delegacia especializada na proteção ao idoso?
A existência de uma delegacia específica é de muita importância. Porque assim o idoso consegue ser atendido em uma delegacia que é voltada exclusivamente para este tipo de público. Então, ele se sente mais à vontade para falar, conversar, para explicar sobre a sua queixa, sobre o que ele está passando. Ele se sente melhor por estar sendo atendido em uma delegacia em que a maioria dos crimes que registramos está prevista no Estatuto do Idoso, que foi criado pela lei 10.741, de 2003.

Os idosos fazem parte de um grupo muito vulnerável a crimes no Brasil?
Eu acredito que muitos órgãos da área de saúde, da área da Justiça aqui de São Paulo, da promotoria do idoso, da delegacia de proteção ao idoso, estão fazendo um bom trabalho de proteção ao idoso. Esse trabalho está sendo bem disseminado. Temos programas de atendimento especial ao idoso, casas para idosos que não têm família aqui em São Paulo. Temos todos esses órgãos. Eu acredito que é muito importante esse trabalho. O trabalho que é desenvolvido nas unidades básicas de saúde, pelo programa de atendimento à família, que atende especificamente os idosos, que vai até as casas, com assistentes sociais, psicólogas, enfermeiras, também é essencial.
A cada ano que passa a expectativa de vida no Brasil tem aumentado, então a gente precisa de um atendimento cada dia melhor para a pessoa da terceira idade.

Quais são os principais crimes praticados contra os idosos?
A maioria das ocorrências que nós atendemos são de discriminação, ofensas, xingamentos, maus-tratos, abandono, apropriação indébita de bens do idoso. Nós temos alguns crimes que têm uma incidência maior na delegacia de registros policiais.

Muitas vezes esses crimes são praticados pelos próprios familiares desses idosos?
Os casos que a gente tem conhecimento ocorrem principalmente entre familiares, sobretudo os casos de crime contra a pessoa, as ofensas, os maus-tratos. No aspecto financeiro é mais quando o idoso já está fora de casa ou em uma instituição bancária ou com problemas com o cartão de crédito, de débito. Ocorrem clonagens do cartão ou outras situações neste sentido. A incidência maior nos casos de maus-tratos e abandono é de dentro da família mesmo.

Há muito receio por parte dos idosos na hora de denunciar os crimes?
Pelo que a gente tem visto os idosos têm procurado bastante a delegacia. Eles têm se amparado nos órgãos de proteção ao idoso. Não só na delegacia, mas também na promotoria de justiça especializada em idosos. Eles têm procurado também as unidades básicas de saúde. O que a gente tem percebido é que o idoso está denunciando mais também, assim como foi com as mulheres, que no começo não denunciavam e depois passaram a denunciar mais. Agora as pessoas da terceira idade estão denunciando mais.
O que a gente também percebe é que as pessoas têm procurado mais informação. Eles têm procurado, não só os idosos, mas os familiares também têm buscado se informar melhor, conhecer o Estatuto do Idoso.

Os idosos se tornam alvos mais fáceis dos criminosos em virtude de uma limitação física maior, pouca mobilidade e até mesmo uma certa "ingenuidade"?
Estas situações são usadas pelos criminosos. Conforme o idoso vai tendo uma idade mais avançada, logicamente ele se torna um pouco mais frágil no aspecto de saúde, no aspecto físico e até no aspecto mental. Alguns se aproveitam disso justamente para poder praticar delitos em relação a essas pessoas que, de alguma forma, estão se tornando hipossuficientes.

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