TERAPIA COMUNITÁRIA - CONVERSAS QUE CURAM
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de dezembro de 2003
Janaina Garcia<br> Reportagem Local 
Se ''os olhos são a janela da alma'', como diz a máxima popular, nunca os ouvidos desempenharam papel tão importante para curar feridas afetivas como nos dias de hoje. Munido dessa idéia e aliado ao conceito grego de comunidade (cuja formologia remete a ''unidade comum''), um grupo de 60 profissionais de Londrina tem posto em prática em todas as regiões da cidade a chamada e nova á Terapia Comunitária.
Implantada inicialmente em 1987 na cidade de Fortaleza (CE), a iniciativa foi trazida ao Paraná ano passado pelo psiquiatra e antropólogo que a criou, Adalberto Barreto, durante um congresso de Assistência Social no município de Faxinal. Interessadas, assistentes de Londrina trouxeram a idéia para a Prefeitura e, desde outubro, o grupo formado e em processo de capacitação com o médico já atendeu cerca de 17 mil pessoas nas mais de mil terapias grupais aplicadas até este mês.
''Problemas como estresse e depressão atingem todas as classes sociais. E muitos que sofrem desses males apelam quando podem a medicamentos psicotrópicos, sendo que a experiência de vida dos membros da própria comunidade teria recursos para tratá-los'', explica Barreto à Folha.
Segundo a coordenadora da equipe de Terapia Comunitária em Londrina, a psicopedagoga Maria da Graça Martini, o trabalho conta com as parcerias das secretarias municipais de Sa© úde, Assistência Social e da Mulher, que fornecem tanto os profissionais (entre os quais, médicos, psicólogos, assistentes sociais) quanto o público cadastrado em seus programas. Uma vez definidos, os grupos de terapia são esquematizados para o atendimento semanal em sessões de uma hora. A sistemática, conta a coordenadora, é o que define o sucesso da medida.
''Nos primeiros seis meses o processo teve várias dificuldades, pois os atendidos queriam algo em troca geralmente, cestas básicas e, além do mais, mantinham muito afastados de si seus próprios problemas. Enfim, não se importavam com seus sentimentos e angústias'', diz a coordenadora. Associado a isso, havia ainda o preconceito quanto à palavra terapia mas, garante Maria da Graça, nada que o tempo não mudasse.
''Eles nos confundiam com a figura do psicoterapeuta, que ouve os problemas, interpreta-os e sugere um diagnóstico para tratar a patologia psíquica. Já o terapeuta apenas faz perguntas que levem o atendido à reflexão e o ouve'', diferencia. Nesse sentido, continua a psicopedagoga, os resultados vêm da observação dos problemas alheios e da constatação de que é necessário buscar as soluções para eles, os quais podem ser os mesmos entre vários participantes. ''Existe essa corresponsabilidade: em grupo, todos buscam as soluções.''
De acordo com Maria da Graça, outra vantagem desse tipo de terapia é a inserção do indivíduo na rede de serviços públicos, visto que ele é encaminhado pelos terapeutas conforme a necessidade revelada. ''Já mandamos gente para o Centro de Atendimento à Mulher (CAM), ao programa Sinal Verde, ao Conselho Tutelar, à Companhia de Habitação de Londrina (Cohab), a serviços de saúde e até de emissão de documentos'', relaciona. ''Foi observado ainda que, à medida em que a terapia ia melhorando o bem-estar da pessoa, ela trazia outros membros da família para participar.''
Para o ano que vem, a expectativa é de que outras secretarias participem segundo a psicopedagoga, as de Educação e do Idoso já demonstraram interesse. ''Nos atendimentos desse ano, por exemplo, a pasta municipal de Saúde refletiu bem os efeitos da Terapia Comunitária: os tratamentos contra a depressão têm sido mais efetivos.''
Maria da Graça comenta sobre a dinâmica das terapias. ''Em pouco mais de uma hora, as pessoas expõem seus problemas e daí elegemos quatro ou cinco para discussão. Então começamos a fazer perguntas que as levem à reflexão do que as aflige ou angustia e estabelecemos algumas regras: não se pode julgar, nem dar conselho, bem como falar apenas de si e usar uma fábula, história ou música para complementar a apresentação.'' A maior dificuldade nessa sequência, explica o psiquiatra idealizador do projeto, reside justamente nas crenças religiosas. ''Há muitos fanáticos que tentam colocar em Jesus a solução para os problemas e desqualificar o tratamento terapêutico. Mas há o ditado: 'Deus ajuda os homens através dos homens', e abordamos isso com eles'', argumenta.
A coordenadora londrinense concorda. ''Tem que sair dessa dimensão mística de Deus e abraçar os problemas para encontrar as soluções'', aponta. Nesse sentido, alguns casos acabaram chamando a atenção da terapeuta. ''Temos o de uma senhora que, no início das terapias, não se olhava há anos no espelho, com vergonha de si mesma, e ainda tinha pavor de o filho ser assassinado. Meses depois, ela fundou uma organização não-governamental (ong) de reciclagem de lixo e, mais vaidosa, comentou que tinha até ganho mais respeito na família e na comunidade. A gente se perguntava, incrédulo: 'o que foi feito para mudar tanto?' Na verdade, era simples: ela tinha aprendido a gostar de si''.


